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Brasil: um país continental que ainda não conseguiu se conectar

Jener Tinôco
Jener Tinôco
agosto 19, 2026 3 minutos de leitura
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O ritmo, a escala e a integração dos investimentos ainda não correspondem às dimensões e às necessidades de um país continental como o Brasil.

O Brasil entrou no século XXI, mas ainda não conseguiu construir uma infraestrutura compatível com o tamanho da sua economia, do seu território e da sua população.

Somos um país continental, com dimensões que exigiriam uma rede moderna e integrada de rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos. No entanto, continuamos convivendo com gargalos que dificultam o deslocamento das pessoas, encarecem o transporte de mercadorias e limitam o desenvolvimento de regiões inteiras.

O problema não é apenas a falta de obras. É, sobretudo, de um projeto de desenvolvimento para o Brasil, a falta de continuidade, planejamento e visão de longo prazo.

O próprio governo reconhece a necessidade de planejamento integrado. O Plano Nacional de Logística 2035 foi concebido justamente para articular os diferentes modais e orientar investimentos de médio e longo prazo. O problema é transformar planejamento em uma política de Estado capaz de atravessar governos.

Enquanto isso, o brasileiro continua enfrentando uma infraestrutura rodoviária que, em muitos trechos, está longe do aceitável. A Pesquisa CNT de Rodovias 2025 mostrou avanços, mas ainda apontou problemas importantes de pavimento, sinalização e geometria. Em 2024, 67% da extensão avaliada pela CNT estava classificada como regular, ruim ou péssima.

Isso tem consequência direta na vida das pessoas. Uma estrada ruim não significa apenas desconforto. Significa mais acidentes, viagens mais demoradas, veículos danificados, fretes mais caros e produtos mais caros.

E a segurança continua sendo uma questão dramática. Nesta terça-feira, uma passarela desabou na Fernão Dias depois de ser atingida por um caminhão, deixando duas pessoas mortas. O episódio ainda está sob investigação, mas lembra, de maneira dolorosa, que infraestrutura também é segurança e preservação de vidas.

Há ainda uma contradição que merece ser enfrentada: o brasileiro paga muito caro para se deslocar em um país que ainda oferece uma infraestrutura insuficiente.

Há pedágios elevados em determinados corredores rodoviários. As passagens aéreas continuam pesando no orçamento de quem precisa viajar pelo país. E a ausência de uma rede ferroviária de passageiros de longa distância praticamente eliminou uma alternativa que poderia conectar cidades e regiões de forma mais eficiente.

O Brasil também poderia explorar muito mais suas hidrovias. Um país cortado por grandes rios não deveria depender tanto das rodovias para movimentar sua produção. Da mesma forma, precisamos ampliar e modernizar ferrovias e portos, integrando esses modais para reduzir custos e aumentar a competitividade.

Não se trata de dizer que nenhuma obra foi realizada. Há investimentos relevantes em andamento. Em 2025, os investimentos gerais em infraestrutura chegaram a um recorde de R$ 280 bilhões, segundo levantamento da Abdib, com aproximadamente 80% provenientes do setor privado.

A questão é outra: isso é suficiente para um país do tamanho do Brasil?

O Brasil precisa parar de pensar infraestrutura apenas como obra de governo. Infraestrutura é projeto de país.

Uma ferrovia não deve ser pensada apenas para transportar minério. Uma rodovia não pode ser vista apenas como uma faixa de asfalto. Um aeroporto não é somente um terminal. Um porto não é apenas um lugar para embarcar mercadorias.

Tudo precisa estar conectado.

Estradas devem chegar às ferrovias. Ferrovias devem chegar aos portos. Hidrovias precisam integrar regiões produtoras. Aeroportos devem aproximar pessoas e mercados. E toda essa rede deve permitir que um brasileiro possa viajar, trabalhar, estudar, empreender ou fazer turismo em outra região do país sem transformar o deslocamento em uma aventura cara e demorada.

Mobilidade também é desenvolvimento.

Um país que não consegue transportar pessoas e mercadorias com eficiência perde competitividade. Um estado isolado por falta de boas estradas perde oportunidades. Uma cidade sem aeroporto ou conexão ferroviária perde negócios. Uma região turística sem acesso adequado perde visitantes.

O Brasil não pode continuar administrando sua infraestrutura como quem remenda o passado.

Precisamos de uma agenda nacional para as próximas décadas, com prioridades claras, projetos executivos, recursos assegurados, segurança jurídica e continuidade administrativa.

Porque o problema brasileiro não é falta de território.

É falta de conexão.

E um país continental que não consegue conectar seus próprios cidadãos continuará sendo, paradoxalmente, um país dividido pela distância.

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