IPOs desaparecem, recuperações judiciais aumentam e o varejo entra em crise
Há sinais importantes na economia brasileira que merecem mais atenção do que os indicadores positivos de curto prazo.
Durante anos, o mercado de capitais foi apresentado como uma das grandes vitrines de uma economia moderna. Empresas cresciam, abriam capital, captavam recursos e buscavam na Bolsa o financiamento necessário para novos investimentos. Hoje, esse movimento praticamente desapareceu.
O Brasil passou quase cinco anos sem uma nova oferta pública inicial de ações. A Compass, em maio de 2026, encerrou esse longo intervalo, mas em uma operação atípica, totalmente secundária.
Enquanto os IPOs rareiam, as recuperações judiciais avançam. Em 2025, 2.466 empresas estiveram envolvidas em processos de recuperação judicial, o maior número registrado pela Serasa Experian desde o início da série. No primeiro trimestre de 2026, foram 5.931 pedidos, segundo o Monitor RGF.
E talvez nenhum setor simbolize melhor essa deterioração do ambiente empresarial do que o varejo.
A crise atingiu algumas das marcas mais conhecidas do país. Casas Bahia, Marabraz, Tok&Stok, Pão de Açúcar e outras empresas enfrentam processos de reestruturação. Só as grandes redes varejistas já reestruturaram cerca de R$ 68 bilhões em dívidas desde 2023.
O pedido de recuperação judicial das Casas Bahia, com uma dívida de R$ 17,3 bilhões, é o episódio mais recente e talvez o mais emblemático.
O cenário não pode ser explicado por uma única causa. Juros elevados, crédito caro, endividamento das famílias, mudanças no comportamento do consumidor, concorrência do comércio eletrônico e problemas de gestão formam uma combinação particularmente difícil para as empresas.
A questão que fica é incômoda: se o ambiente econômico é tão favorável, por que as empresas têm tanta dificuldade para crescer, captar recursos e preservar sua saúde financeira?
A ausência de IPOs, o avanço das recuperações judiciais e a crise de grandes varejistas não contam toda a história da economia brasileira. Mas são sinais que não deveriam ser ignorados.
Uma economia saudável precisa produzir não apenas consumo e emprego, mas também novos negócios, investimentos, empresas crescendo e capital privado financiando expansão.
Quando os IPOs desaparecem e as recuperações judiciais se multiplicam, o mercado está dizendo alguma coisa.
É preciso saber ouvir.