Em uma eleição presidencial, debate não é evento protocolar. É uma das poucas ocasiões em que candidatos com projetos diferentes para o país são colocados diante das mesmas perguntas, submetidos ao contraditório e obrigados a explicar suas posições sem o conforto do discurso previamente controlado.
Por isso, faltar a um debate é um erro político.
E quando três candidatos de peso – Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema – deixam de comparecer, a ausência produz uma pergunta que não pode ser ignorada: por que não enfrentar o debate?
Não se trata de afirmar que quem falta tem necessariamente algo a esconder. Mas é inevitável reconhecer que a ausência alimenta essa percepção.
O debate é, por natureza, um ambiente de confronto de ideias. É onde o candidato precisa demonstrar conhecimento, capacidade de argumentação, equilíbrio e preparo para responder ao que não estava previsto. É também onde precisa conviver com aquilo que é essencial à democracia: o contraditório.
Quem foge dessa arena pode passar a impressão de que prefere a comunicação sob controle ao confronto com perguntas difíceis.
E isso é particularmente preocupante em uma eleição presidencial.
O presidente da República não governará em um ambiente controlado. Será confrontado pelo Congresso, pelo Judiciário, pela imprensa, por governadores, prefeitos, empresários, trabalhadores, movimentos sociais e por uma sociedade cada vez mais plural e exigente.
Se o candidato não demonstra disposição para enfrentar o contraditório durante a campanha, o eleitor tem o direito de perguntar como pretende enfrentá-lo quando estiver no poder.
Há ainda um problema maior.
O debate não serve apenas para o eleitor descobrir quem é mais habilidoso diante das câmeras. Serve para conhecer o projeto de país de cada candidato.
Que economia pretende construir?
Que política social defende?
Como pretende enfrentar a violência?
Qual será sua relação com o Congresso?
Como enxerga o papel do Estado?
Que posição terá diante dos desafios internacionais?
Como pretende equilibrar responsabilidade fiscal e investimentos?
Que Brasil pretende entregar ao final de um eventual mandato?
São perguntas que não deveriam ser respondidas apenas por marqueteiros, vídeos de campanha ou discursos preparados.
Precisam ser enfrentadas publicamente.
Quando um candidato não comparece, perde justamente essa oportunidade: a de dizer ao país, olhando para seus adversários e para os eleitores, que projeto de Brasil pretende colocar em prática.
E a ausência tem outra consequência.
Aquilo que poderia ser explicado pelo próprio candidato passa a ser interpretado pelos outros. Críticas ficam sem resposta. Acusações não são confrontadas. Dúvidas permanecem abertas.
Não porque a ausência prove que exista alguma coisa errada, mas porque quem não comparece abre mão da melhor oportunidade para demonstrar que as suspeitas ou questionamentos não procedem.
O medo do contraditório, quando percebido pelo eleitor, pode transmitir uma mensagem ainda mais grave: a de que o candidato talvez não esteja suficientemente preparado para o ambiente democrático.
Democracia pressupõe conflito de ideias.