Turismo regional não combina com estrada hostil
Viajar pelo Nordeste de carro deveria ser um convite à descoberta. Hoje, muitas vezes, parece um teste de resistência.
Neste fim de semana, fui a Caruaru, a próspera capital do forró, passando por Campina Grande. A viagem serviu para uma constatação que vai muito além da experiência de um motorista: é difícil falar seriamente em crescimento do turismo regional quando as estradas parecem trabalhar contra quem decide viajar.

A estrada entre Campina Grande e Caruaru é estreita, cheia de curvas, com movimento razoável e uma quantidade impressionante de lombadas físicas. Ao longo do percurso, somam-se radares eletrônicos, mudanças nos limites de velocidade, alguns trechos mal conservados e uma sensação permanente de que falta uma lógica de organização da rodovia.
Em Caruaru surgiu outra questão, aparentemente simples: almoçar no retorno em Recife ou em João Pessoa? A resposta acabou sendo dada pelo trânsito. A BR-101, na região de Recife, tornou-se um argumento poderoso contra a escolha. Trânsito insuportável há muitos anos na chegada à capital pernambucana, lentidão quase permanente em Abreu e Lima e Igarassu e, depois, mais congestionamentos no entorno de João Pessoa. A opção foi retornar por Campina Grande e almoçar na ótima Trattoria de Origem, no Shopping.

Pelo menos desta vez, a BR-101 ficou para trás.
Mas a história não termina aí. Há poucos dias, saí de Natal de madrugada, imaginando que chegaria cedo a Recife. A viagem levou oito horas. Primeiro, uma retenção completa provocada por acidente após João Pessoa. Depois, o trânsito pesado nas cidades do caminho. E, finalmente, a própria BR-101, novamente transformada em uma espécie de gargalo permanente.
Não é razoável que uma viagem entre capitais nordestinas possa ser tão imprevisível.
O problema não é apenas o congestionamento. É o conjunto: estradas estreitas, conservação irregular, excesso de lombadas, fiscalização eletrônica espalhada por trechos com velocidades diferentes, mudanças constantes de limite, acidentes que rapidamente paralisam o tráfego e, sobretudo, a falta de uma percepção de que estrada também é infraestrutura turística.
O Nordeste tem destinos extraordinários separados por distâncias relativamente curtas. Natal, Mossoró, João Pessoa, Recife, Caruaru, Campina Grande, Gravatá, Garanhuns e tantos outros poderiam formar uma grande rota de turismo regional. O que falta não é destino. São caminhos capazes de conectar, com eficiência, a extraordinária diversidade turística do Nordeste.
Mas isso exige estrada.
Turismo não é apenas aeroporto, hotel, restaurante, evento e propaganda. Turismo também é chegar. E chegar bem, com segurança, previsibilidade e tempo razoável.
Não adianta promover regionalmente Caruaru, Campina Grande, Recife ou João Pessoa como destinos turísticos se o turista precisa considerar a estrada como parte do problema. A viagem começa quando se deixa a cidade de origem – e uma estrada ruim pode destruir boa parte da experiência antes mesmo de o visitante chegar ao destino.
Há ainda uma contradição incômoda: enquanto se fala tanto em desenvolvimento regional, integração econômica e fortalecimento do turismo interno, continuamos tratando nossas rodovias como se fossem apenas caminhos entre dois pontos.
Não são. São corredores de desenvolvimento.
E precisam ser planejados como tal.
O turista regional não quer aventura na estrada. Quer conhecer lugares, comer bem, descansar, fazer compras, visitar amigos, participar de festas e voltar para casa. Quer previsibilidade.
Se a opção de viajar de carro entre cidades nordestinas continuar significando congestionamentos, acidentes, desvios, lombadas em excesso, radares, mudanças de velocidade e trechos deteriorados, o turismo regional continuará crescendo apesar das estradas – e não por causa delas.
Ontem, pelo menos, escapei da BR-101. O turismo nordestino, infelizmente, ainda não conseguiu escapar dela.
E olhe que nem falei em transporte aéreo regional, já que só há ligação entre algumas capitais, além de caríssimo.