E se o seu voto não fosse perdido?
Minha coluna aqui no blog não é sobre política. É sobre comportamento, negócios, comunicação e, principalmente, sobre as mudanças que podem transformar o nosso futuro.
Mas existe um problema: não dá para falar sobre o futuro da economia e dos negócios sem falar de política. E, depois de uma conversa que tive hoje pela manhã, resolvi abrir esta exceção.
A conversa começou com aquela velha discussão sobre as eleições de 2026. De um lado, Lula. Do outro, Flávio Bolsonaro. No meio deles, outros candidatos tentando encontrar espaço em uma disputa que, neste momento, continua fortemente polarizada. As pesquisas mais recentes confirmam essa concentração de intenções de voto nos dois primeiros colocados, enquanto outros nomes aparecem com percentuais bem menores.
Até aí, nada de novo.
O que me chamou atenção foi uma frase: “Eu não vou votar nesses outros candidatos porque não quero perder meu voto.”
E talvez esteja justamente aí um dos maiores problemas da nossa democracia.
Se um candidato tem 4% e você deixa de votar nele porque acredita que ele não tem chance, ele continuará com 4%. Se outros fazem a mesma coisa, continuará com 4%. Ele nunca chegará a 5%, 10%, 20% ou 51%.
Como alguém pode deixar de ser uma alternativa se ninguém está disposto a lhe dar a primeira oportunidade?
É claro que votar é uma decisão individual. Cada eleitor deve escolher de acordo com suas convicções, suas prioridades e sua avaliação dos candidatos. Não estou aqui para dizer em quem alguém deve votar, e muito menos para substituir a análise de cada cidadão.
Mas talvez devêssemos mudar uma pergunta.
Em vez de perguntar: “Esse candidato tem chance de ganhar?”
Talvez devêssemos perguntar: “Eu quero que esse candidato tenha a chance de ganhar?”
Porque existe uma diferença enorme entre escolher alguém porque você acredita nele e escolher alguém simplesmente porque acredita que ele vai vencer.
E essa lógica ajuda a explicar por que permanecemos presos, eleição após eleição, a uma polarização que parece não terminar.
Existe uma espécie de conforto político nessa divisão. Cada lado tem seu eleitor fiel. Um pode cometer erros que serão relativizados por seus apoiadores; o outro pode fazer o mesmo e encontrará quem faça exatamente o contrário: relativizar, justificar ou atacar o adversário.
No fim, a política vira torcida. E quando a política vira torcida, o cidadão deixa de cobrar o próprio time.
Talvez seja justamente isso que precisamos mudar. Não significa acreditar que um candidato novo será necessariamente melhor. Pode não ser. Pode decepcionar. Pode errar. E, se isso acontecer, existe uma ferramenta simples para responder: na próxima eleição, não vote nele novamente.
É assim que deveria funcionar. Experimentar. Avaliar. Cobrar. Trocar.
O que não parece saudável é transformar o voto em uma espécie de contrato permanente com um candidato ou grupo político, independentemente dos resultados.
O Brasil não precisa necessariamente escolher entre os mesmos nomes, as mesmas brigas e os mesmos argumentos para sempre.
Talvez precise apenas recuperar uma coisa que deveria ser básica em qualquer democracia: a liberdade de dizer “esse não funcionou; vamos tentar outro”.
E talvez o primeiro passo para quebrar um ciclo seja justamente parar de considerar perdido o voto que não vai para quem está na frente.
Voto perdido, para mim, não é voto em quem tem pouca intenção de voto.
Voto perdido é aquele que você entrega sem acreditar na escolha que está fazendo.
Porque, no fim, quem decide quais alternativas existem não são apenas as pesquisas.
Somos nós.