Cury aposta na inteligência emocional para entrar na disputa presidencial

Augusto Cury entrou na última sabatina da Globo com uma estratégia bastante clara: apresentar-se ao eleitor como uma alternativa à polarização que domina a política brasileira. Psiquiatra, escritor e empresário, o candidato do Avante tentou levar para a política o discurso que construiu sua trajetória profissional: inteligência emocional, educação, empreendedorismo, tecnologia e capacidade de diálogo.
A entrevista, conduzida por Renata Vasconcellos e César Tralli, mostrou um candidato disposto a falar de um Brasil diferente, menos marcado pelo confronto político e mais orientado pela eficiência administrativa. Cury defendeu a redução do número de ministérios, a digitalização da máquina pública e a utilização da inteligência artificial para reduzir custos e melhorar a gestão. Também propôs uma estrutura específica para Inteligência Artificial e Robótica.
É justamente aí que aparece a principal característica – e também a principal fragilidade – de sua candidatura.
Cury tem ideias. Muitas delas chamam atenção. Mas ainda precisa transformar ideias em um programa de governo mais mensurável.
A proposta de taxar as bets em mais de 50%, por exemplo, é forte do ponto de vista político, mas exige uma explicação mais detalhada sobre arrecadação, impactos econômicos e capacidade de execução. Na área fiscal, Cury falou em reduzir ministérios e combater uma dívida pública que classificou como “estratosférica”, mas não apresentou, na entrevista, um desenho suficientemente detalhado para convencer o eleitor de como fecharia as contas do governo.
Na saúde, chamou atenção a defesa de ampliar a telemedicina no SUS para até 80% dos atendimentos. Na área social, propôs que beneficiários do Bolsa Família possam ingressar no mercado formal sem perder imediatamente o benefício, numa tentativa de aproximar assistência social e estímulo ao emprego.
Na segurança pública, Cury apresentou uma proposta de forte apelo popular: o uso de drones e um aplicativo com botão de alerta para mulheres vítimas de violência. É uma tentativa de mostrar que tecnologia pode ser transformada em instrumento direto de proteção da população.
Mas talvez nenhuma proposta tenha chamado tanto a atenção quanto a ideia de utilizar influenciadores digitais nas embaixadas brasileiras. Cury argumenta que o Brasil precisa melhorar sua capacidade de “vender” sua imagem e seus produtos no exterior e que os diplomatas poderiam ser treinados para utilizar as ferramentas digitais.
É uma proposta que resume bem a candidatura: Cury quer levar para o Estado a linguagem da nova economia, da tecnologia e das redes sociais.
O problema é que governar não é apenas comunicar.
A entrevista também revelou um candidato que ainda precisa responder melhor a questões estruturais. Economia, equilíbrio fiscal, Previdência, reforma administrativa e tamanho do Estado exigem números, prioridades e cronogramas. Os próprios entrevistadores observaram que Cury não detalhou suficientemente seus planos econômicos.
Por outro lado, seria injusto avaliar sua candidatura apenas pela régua da política tradicional. Cury tenta construir uma identidade própria. Não quer ser Lula, não quer ser Bolsonaro e tampouco pretende ocupar o espaço clássico da direita ou da esquerda. Seu discurso é o de um outsider, embora carregue uma trajetória empresarial e intelectual bastante consolidada.
Sua crítica à polarização é provavelmente o maior ativo eleitoral de sua candidatura. O problema é saber se existe, no atual ambiente político brasileiro, espaço suficiente para uma candidatura que promete conciliação quando boa parte do eleitorado ainda está mobilizada justamente pelo conflito entre os dois grandes polos políticos.
Cury terminou a entrevista sem produzir uma grande ruptura na corrida presidencial. Mas conseguiu algo importante para uma candidatura que parte de um patamar eleitoral reduzido: ocupou espaço, apresentou propostas e reforçou uma marca própria.
Agora, a pergunta que fica é outra: o eleitor que está cansado da polarização está disposto a trocar a guerra política pela inteligência emocional?
A resposta a essa pergunta pode determinar o tamanho de Augusto Cury na eleição de 2026.