Por indicação de um velho amigo dos tempos de Colégio Salesiano, recorro a Cícero diante das “estranhosidades” que estamos presenciando.
A lembrança é da Primeira Catilinária, pronunciada por Marco Túlio Cícero em 7 de novembro de 63 a.C., no Senado romano, contra Lúcio Sérgio Catilina. Diante de uma conspiração que ameaçava a República, Cícero foi direto ao ponto. Não começou com explicações. Começou com uma pergunta que atravessou mais de dois mil anos:
“Até quando, afinal, Catilina, abusarás da nossa paciência?
Por quanto tempo ainda esse teu furor zombará de nós?
Até que ponto se lançará tua audácia desenfreada?
Nada te comoveu: a guarda noturna do Palatino, as sentinelas da cidade, o temor do povo, a reunião de todos os homens de bem, este lugar tão fortificado para a realização do Senado, os rostos e as expressões de todos estes?
Não percebes que teus planos estão descobertos?
Não vês que tua conspiração já está dominada pelo conhecimento de todos nós?
O que fizeste na noite passada e na anterior, onde estiveste, quem convocaste, que decisão tomaste — quem de nós acreditas que ignore?”
A sequência é poderosa justamente porque não dá trégua. Uma pergunta sucede à outra, até transformar a indignação em cobrança pública.
Mais de dois mil anos depois, não se trata de comparar personagens, épocas ou circunstâncias. Trata-se apenas de reconhecer que algumas perguntas permanecem atuais quando uma sociedade começa a perceber que determinadas coisas estão deixando de parecer normais.
Até quando?
Talvez seja essa a pergunta que o nosso tempo esteja começando a fazer.