
A estupidez política às vezes consegue ultrapassar a própria política. A campanha que circula nas redes pregando “boicote ao Nordeste”, recomendando que brasileiros não viajem nem gastem dinheiro na região, é uma dessas manifestações em que o preconceito regional se encontra com uma impressionante ignorância econômica.
Talvez os autores da ideia devessem conhecer alguns números antes de tentar dividir o Brasil.
O Nordeste tem mais de 57 milhões de habitantes – aproximadamente 27% da população brasileira. É gente trabalhando, produzindo, empreendendo, pagando impostos e, sobretudo, comprando.
E compra muito.
Em 2025, o potencial de consumo das famílias nordestinas foi estimado em aproximadamente R$ 1,51 trilhão. O Nordeste passou a representar 18,6% do consumo nacional, superando o Sul e tornando-se a segunda maior força consumidora do Brasil, atrás apenas do Sudeste.
Quer mais?
O PIB nordestino alcançou cerca de R$ 1,51 trilhão em 2023, correspondendo a 13,8% de toda a economia brasileira.
Agora vem a parte que deveria interessar especialmente aos gênios do “boicote”.
O Nordeste não consome apenas aquilo que produz. Ele é um gigantesco comprador da produção de outras regiões brasileiras. Dados do comércio interestadual mostram que, em 2021, 42,4% das compras interestaduais nordestinas tinham como origem o Sudeste; outros 12,5% vinham do Sul. Ou seja: mais da metade das compras interestaduais do Nordeste vinha justamente dessas duas regiões.
É aqui que a genialidade do boicote começa a tropeçar na calculadora.
Querem que o restante do Brasil deixe de comprar do Nordeste enquanto o Nordeste continua comprando automóveis, máquinas, medicamentos, eletrodomésticos, alimentos industrializados e milhares de outros produtos fabricados fora da região?
Se a lógica da retaliação econômica regional fosse levada às últimas consequências – o que seria desastroso para todos -, quem exatamente estaria boicotando quem?
São Paulo e o Sudeste possuem economias enormes e evidentemente não dependem exclusivamente do mercado nordestino. Mas imaginar que 57 milhões de consumidores e um mercado de R$ 1,5 trilhão podem ser tratados como inimigos sem consequências econômicas para empresas instaladas em outras regiões é desconhecer como funciona uma economia nacional integrada.
E existe algo ainda mais grave.
Discordar do voto de alguém faz parte da democracia. Defender punição econômica contra uma população por causa do comportamento eleitoral atribuído à sua região não é debate político. É preconceito regional fantasiado de ativismo econômico.
O Nordeste não está separado da economia brasileira. O Nordeste compra do Brasil, vende para o Brasil, produz para o Brasil e ajuda a sustentar empresas e empregos espalhados pelo Brasil.
Boicotar o Nordeste seria como tentar ferir um braço imaginando que o restante do corpo não sentirá.
E, finalmente, há uma pergunta muito mais simples:
Desde quando o voto passou a determinar quais brasileiros merecem receber turistas, investimentos ou consumidores?
E quem diz defender o Brasil enquanto prega boicote contra 57 milhões de brasileiros talvez precise primeiro decidir que Brasil, afinal, está defendendo.
No fim, essa campanha não pune Lula nem enfraquece o PT. Faz exatamente o contrário: entrega de graça o combustível para a velha política do “nós contra eles”, transforma o nordestino em alvo, provoca uma reação de identidade e solidariedade regional e oferece a Lula o papel que mais lhe interessa – o de pretenso defensor de um Nordeste supostamente atacado e onde falta infraestrutura, segurança, educação de qualidade, projeto de desenvolvimento. É difícil imaginar tamanha burrice política: pretendendo atingir Lula, seus autores acabam fazendo campanha para ele.