A campanha de 2026 parece ter inaugurado uma nova modalidade de fidelidade política: a fidelidade a todos. Tem prefeito apoiando dois candidatos a deputado federal, três para o mesmo cargo, dividindo a preferência entre candidatos a deputado estadual e, para completar a salada, fazendo dobradinha com gente de campos ideológicos completamente diferentes.
A matemática é criativa: cada candidato recebe a garantia de que é “o nosso candidato”, enquanto os demais recebem exatamente a mesma garantia. Promete-se voto para todo mundo e, depois, deixa-se a urna fazer a seleção natural.
Não quis citar aqui casos semelhantes do nosso Rio Grande do Norte, velho de guerra, porque certamente não existe nada parecido por estas bandas. Afinal, por aqui imperam a coerência, a correção e a fidelidade política – em tamanha abundância que o que se sabe não rende sequer uma nota. Seria injustiça com a reputação dos nossos virtuosos líderes.
Pelo Brasil afora, entretanto, a coisa parece bem menos comportada. Prefeito de direita apoia candidato ao Senado da esquerda; liderança de esquerda fecha com candidato da direita; deputado divide espaço com adversários; e as redes sociais registram, em belas artes e sorridentes fotografias, alianças que até ontem pareciam politicamente impossíveis.
Ideologia virou detalhe, coerência virou artigo de luxo e lealdade passou a ser negociada no atacado. É o salve-se quem puder eleitoral, com cada liderança montando sua própria coligação particular e distribuindo promessas de voto como quem distribui santinho.
No fim, não é mais palanque. É self-service de voto: cada candidato se serve da preferência que lhe prometeram e torce para que, no dia da eleição, alguma coisa dessa promessa ainda esteja de pé.