Há uma tese que vem ganhando força no debate político brasileiro: a de que a eleição de 2026 será marcada por uma polarização tão consolidada que praticamente empurrará o eleitor para os dois extremos do campo político.

É uma tese possível. Mas, até aqui, as pesquisas dizem outra coisa.
Os dois levantamentos nacionais divulgados ontem – Nexus/BTG e Atlas/Bloomberg – trouxeram um dado que merece mais atenção do que a simples disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro: o crescimento de Augusto Cury.
Na Nexus/BTG, Cury saltou de 2% para 11%, um crescimento de nove pontos em uma única rodada. Na Atlas/Bloomberg, passou de 1,6% para 7,8%, avançando 6,2 pontos em um mês. Em ambos os levantamentos, aparece em terceiro lugar e, sobretudo, como o nome que melhor captou o eleitor que não está necessariamente disposto a escolher um dos dois polos.
O dado é politicamente relevante porque contraria uma leitura apressada: a de que, à medida que a eleição se aproxima, a polarização necessariamente esmagará as alternativas.
Pode acontecer. Mas ainda não aconteceu.
E talvez essa seja a questão mais interessante neste momento: a polarização existe, mas não parece ser suficiente para impedir a movimentação de uma parcela importante do eleitorado.
No Rio Grande do Norte, o fenômeno merece ainda mais atenção.
Em pleno 1º de setembro, o quadro estadual continua apresentando, na maior parte dos levantamentos, Alysson, Álvaro e Cadu, nessa ordem. É uma fotografia que vem se repetindo e que, até agora, não demonstra uma alteração profunda provocada pela nacionalização da disputa ou pela expectativa de uma eleição cada vez mais polarizada.
Se a tese fosse de que a polarização nacional produziria automaticamente uma transferência de votos para os candidatos associados aos grandes polos, já deveríamos estar enxergando isso com maior nitidez no RN.
Não estamos.
Isso não significa que o cenário esteja definido. Muito pelo contrário.
Significa apenas que a eleição continua aberta.
Há uma diferença importante entre uma polarização política consolidada no ambiente de debate – nas redes sociais, nos grupos políticos, nos discursos e nas análises – e uma polarização efetivamente consolidada na cabeça do eleitor.
A primeira já existe.
A segunda ainda está em construção.
E o crescimento de Augusto Cury é uma espécie de teste para essa teoria. Se, mesmo com Lula e Flávio ocupando enormes espaços políticos e midiáticos, um candidato que estava praticamente fora do radar consegue chegar a 11% em uma pesquisa e 7,8% em outra, é porque existe um eleitorado disposto a olhar para além da disputa binária.
No RN, a leitura precisa ser semelhante.
A sucessão de pesquisas mantendo Alysson, Álvaro e Cadu nas primeiras posições sugere que o eleitor potiguar, pelo menos até agora, não está simplesmente reproduzindo a polarização nacional.
E isso é importante.
Porque a eleição pode, sim, caminhar para uma disputa mais polarizada nos próximos dias. Mas não há razão para tratar esse movimento como inevitável.
Pesquisa é fotografia, não sentença.
E a fotografia de 1º de setembro mostra algo bastante claro: a polarização é uma possibilidade cada vez mais presente no cenário, mas ainda não foi capaz de alterar profundamente a intenção de voto no Rio Grande do Norte.
Ainda não aconteceu.
E, em política, o que ainda não aconteceu pode ser justamente aquilo que mais importa observar.