
Na política, especialmente durante uma campanha eleitoral, os radicais costumam ter uma dificuldade adicional: enxergar o processo com senso analítico. Para eles, quase tudo é definitivo. A eleição já estaria decidida antes mesmo de começar, os favoritos são tratados como vencedores antecipados e qualquer resultado diferente daquele que imaginavam pode ser interpretado como fraude, erro ou até “roubo”.
É uma maneira simplista de compreender um processo que, por natureza, é dinâmico.
Eleição se sabe como começa. Não se sabe como termina. E essa talvez seja uma das primeiras regras que candidatos, partidos, analistas e eleitores deveriam levar em consideração.
Uma campanha eleitoral é feita de movimentos. Há fatos que alteram cenários, acontecimentos que modificam percepções, erros que custam caro, acertos que produzem efeitos, debates, alianças, acontecimentos nacionais e locais, além de um componente que nenhum estrategista consegue controlar inteiramente: a decisão do eleitor.
Por isso, transformar uma fotografia do momento em sentença definitiva é um equívoco. Pesquisa mostra um retrato, não escreve o resultado da eleição. Liderança pode ser ampliada, reduzida ou perdida. Candidato que começa atrás pode crescer. Quem larga na frente pode tropeçar. E até o último voto ser contado, existe uma campanha inteira pela frente.
O mais perigoso, porém, é subestimar o eleitor.
O eleitor não acompanha uma eleição necessariamente com a mesma lógica dos militantes, dos candidatos ou dos comentaristas políticos. Ele enxerga o processo a partir da própria vida. Observa o preço das coisas, o emprego, o salário, a segurança, a saúde, a cidade onde mora, aquilo que melhorou ou piorou. Considera o que lhe parece importante, o que lhe interessa e, naturalmente, aquilo que lhe convém.
Existe, portanto, uma distância natural entre candidatos e eleitores. O político vive a campanha; o eleitor vive a própria vida. Para o candidato, a eleição pode ser o acontecimento central de alguns meses. Para o eleitor, é apenas uma dimensão entre muitas outras da sua existência.
É justamente nessa distância que muitas previsões precipitadas encontram seu limite.
O eleitor pode ouvir um discurso, assistir a um debate, acompanhar uma propaganda, conversar com alguém, mudar de opinião ou simplesmente decidir seu voto por uma razão que não estava contemplada em nenhuma análise.
É por isso que a política exige menos certezas absolutas e mais capacidade de interpretação.
Dizer que “fulano vai ganhar” pode ser uma opinião. Transformar essa opinião em certeza é outra coisa. Afirmar antecipadamente que, se determinado candidato não vencer, “foi roubo”, é abandonar a análise e substituí-la pela crença.
E crença não apura voto.
Campanha eleitoral num país do tamanho do Brasil, com as suas diferenças regionais, é processo, não sentença. Começa com expectativas, atravessa mudanças e termina com a manifestação soberana do eleitor nas urnas.
Até lá, tudo o que existe são cenários, possibilidades e disputas.
O resultado, esse só aparece quando o eleitor termina de falar.