A entrevista com Flávio Bolsonaro foi marcada por cobrança intensa, reperguntas, pouca margem para o entrevistado – e quase nada sobre o Brasil que se pretende construir.

A entrevista de Flávio Bolsonaro ao Jornal Nacional, encerrada há pouco, me deixou com uma impressão incômoda: em vários momentos, o que deveria ser uma entrevista jornalística pareceu mais um interrogatório. Assim como foi com os outros entrevistados.
Pergunta atrás de pergunta. Cobrança. Insistência. Repergunta. Reformulação. Nova cobrança. Pouca margem para o entrevistado desenvolver uma resposta e, sobretudo, uma insistência quase obsessiva em temas do ontem e do anteontem – Banco Master, 8 de janeiro, tarifaço e outras questões já amplamente conhecidas.
É claro que temas incômodos precisam ser enfrentados. Jornalismo não é lugar para perguntas confortáveis. O problema está no formato. Quando a pergunta é repetida várias vezes porque a resposta não corresponde ao que o entrevistador gostaria de ouvir, a entrevista corre o risco de deixar de ser entrevista e se transformar em uma espécie de disputa de resistência.
Faltou, na minha opinião, olhar para frente. Faltou perguntar ao senador o que pretende fazer, qual é sua visão de Brasil, que projeto defende, como imagina o futuro do país. Afinal, uma eventual candidatura à Presidência deveria interessar ao eleitor não apenas pelo que Flávio Bolsonaro fez ou deixou de fazer ontem, mas principalmente pelo que pretende fazer amanhã.
Também achei o tom, em alguns momentos, excessivamente duro, com interferências e uma certa descortesia que tornaram a entrevista cansativa de assistir. Jornalista precisa apertar, sim. Mas apertar não significa sufocar.
E aqui faço um registro pessoal: Flávio Bolsonaro até surpreendeu pelo autocontrole. Diante de uma verdadeira saraivada de questionamentos, manteve-se relativamente tranquilo, seguro, não perdeu o equilíbrio e procurou sustentar suas respostas mesmo quando submetido à repetição das perguntas.
Pode-se concordar ou discordar das respostas. Pode-se gostar ou não do senador. Mas, naquela entrevista, uma coisa ficou evidente: ele não se deixou desestabilizar.
No fim, ficou a sensação de uma oportunidade perdida. O telespectador merecia uma entrevista dura, sim – mas também inteligente, equilibrada e capaz de discutir não apenas o passado de Flávio Bolsonaro, mas o Brasil que ele pretende construir daqui para frente.