Sinfonia do escape aberto das motos, uma beleza natalense.
Em Natal, temos um novo patrimônio imaterial: o ronco sagrado da moto de escape aberto. Não é qualquer barulho, não. É uma experiência sensorial completa, gratuita e compulsória. O cidadão está jantando? VRÁÁÁÁM. Colocou o bebê pra dormir? VRUUUUM. Tentando ver o pôr do sol em paz? TCHÁÁÁÁÁÁM.
É a trilha sonora oficial da cidade, um projeto ousado de imersão acústica que percorre Tirol, Alecrim, Zona Norte, Ponta Negra, Cidade Satélite, Felipe Camarão, Rocas e adjacências: democrático, inclusivo e absolutamente impossível de ignorar.
Há quem diga que é infração de trânsito, perturbação do sossego, desrespeito coletivo. Que exagero! Trata-se, claramente, de um programa avançado de estimulação auditiva urbana. Afinal, quem precisa de calmaria quando se pode ter um motor berrando às 2h da madrugada? Quem precisa ouvir o próprio pensamento se pode compartilhar o pensamento mecânico de um pistão em combustão? É a socialização do ruído: você não pediu, mas recebeu. E recebeu alto.
E o mais bonito é a harmonia institucional. Um balé silencioso, ironicamente silencioso, de olhares que se desviam, ombros que encolhem e fiscalizações que evaporam. Uma cumplicidade tão afinada que merecia estudo de caso. Talvez até uma investigação pelo Ministério Público, quem sabe? Só para entender como essa orquestra desafinada virou política pública informal. O natalense, claro, agradeceria. De preferência em silêncio. Se ainda lembrar como é.