O problema do Governo do Rio Grande do Norte já parece ter ultrapassado a velha discussão sobre aperto financeiro. O que se vê é um Estado com enorme dificuldade para cumprir até obrigações elementares. Falta dinheiro para quase tudo. E quando um governo começa a escolher qual compromisso paga e qual deixa para depois, o sinal de alerta já virou sirene.
O Rio Grande do Norte enfrenta um grave desequilíbrio em suas contas públicas, com déficit anual da ordem de R$ 3,1 bilhões e dívida pública superior a R$ 12 bilhões. As despesas com pessoal já ultrapassam 56%, pressionando ainda mais a capacidade financeira do Estado. O quadro se agrava com o déficit previdenciário, que superou R$ 1 bilhão apenas no primeiro semestre de 2026 e pode chegar a R$ 2,4 bilhões até o fim do ano, evidenciando uma situação fiscal crítica e de caráter estrutural.
Os exemplos se acumulam. Valores de empréstimos consignados são descontados dos salários dos servidores, mas os recursos não foram repassados regularmente ao Banco do Brasil. É uma situação gravíssima: não se trata simplesmente de uma despesa que o Estado decidiu postergar, mas de dinheiro retirado do servidor com destinação específica. E são mais de R$ 370 milhões em valores históricos reclamados pelo BB.
Com as prefeituras, a conta é ainda mais pesada. São R$ 134,1 milhões de ICMS, R$ 119,3 milhões do Fundeb e R$ 6,7 milhões de royalties. Quase R$ 260 milhões que deveriam estar nos cofres municipais, ajudando prefeitos a manter serviços que chegam diretamente à população.
Enquanto isso, basta percorrer as rodovias estaduais para enxergar outra face da crise. Estradas esburacadas e manutenção precária são o retrato físico de um governo sem capacidade financeira para cuidar adequadamente da própria infraestrutura. Na saúde, a falta de medicamentos e insumos completa um quadro que deixou de ser apenas contábil para atingir diretamente quem depende do serviço público.
É preciso chamar as coisas pelo nome. O Rio Grande do Norte apresenta sinais preocupantes de uma espécie de falência operacional. Não significa tecnicamente que o Estado esteja falido. Significa algo igualmente inquietante para o cidadão: o governo demonstra dificuldade crescente para transformar arrecadação em serviços e para honrar compromissos básicos no tempo devido.
E aí surge a pergunta que precisa ser respondida pelo Governo: onde está o dinheiro? Quanto o Estado deve hoje? Quanto deixou de repassar? Qual é o tamanho dos restos a pagar? Quanto deve a fornecedores? Qual o volume de obrigações vencidas e qual é a disponibilidade real de caixa?
O problema já não comporta explicações genéricas. O Governo precisa abrir as contas e mostrar a realidade financeira do Estado, número por número. Porque quando faltam recursos para municípios, servidores, estradas, medicamentos e serviços essenciais, a crise deixa de ser uma justificativa e passa a ser o próprio retrato da gestão.