Série: comunicação na era pós-digital 2.
Online ou offline? A comunicação ficou mais complexa
O surgimento das plataformas digitais não eliminou os meios tradicionais. Criou um ecossistema muito maior e mais integrado
Durante décadas, a publicidade trabalhou com uma lógica relativamente simples: televisão, rádio, jornal, revista, outdoor e algumas outras ferramentas concentravam grande parte da comunicação de marcas e empresas.
Então veio o mundo digital.
E praticamente tudo mudou.
Surgiram novas plataformas, novos formatos, novos hábitos de consumo e novas possibilidades de relacionamento entre marcas e consumidores. A publicidade ganhou segmentação, personalização, interação e métricas em uma escala que os meios tradicionais dificilmente conseguiam oferecer.
Mas existe um equívoco recorrente nessa transformação: acreditar que o crescimento do digital necessariamente representa a morte do chamado offline.
Não representa.
O que estamos vivendo não é a substituição de um mundo pelo outro. É a integração de mundos que antes eram tratados separadamente.
O consumidor não separa online e offline
O consumidor não acorda pela manhã pensando: “agora vou entrar no ambiente offline”.
Também não pensa: “às 10 horas começa meu período digital”.
A vida real não funciona assim.
Uma pessoa pode tomar café assistindo televisão, ouvir rádio no deslocamento, consultar notícias no celular, receber uma mensagem comercial, ver uma campanha em um outdoor, pesquisar um produto no Google e finalmente realizar uma compra pelo celular.
Tudo isso pode acontecer no mesmo dia.
Às vezes, em poucas horas.
É por isso que a estratégia de comunicação não pode ser construída a partir da ideia de que existe uma fronteira rígida entre online e offline.
O digital trouxe precisão
Não há dúvida de que o ambiente digital revolucionou o planejamento de mídia.
A possibilidade de segmentar públicos por interesses, comportamentos, localização, contexto e outros critérios ampliou significativamente a capacidade de direcionamento da publicidade.
Também houve uma transformação na mensuração.
Hoje, é possível acompanhar diversas etapas da jornada do consumidor e avaliar o desempenho de campanhas com muito mais precisão.
Isso representa um enorme avanço.
Mas precisão não é a mesma coisa que alcance.
E alcance não é a mesma coisa que construção de marca.
Cada ferramenta possui uma função.
A força da comunicação de massa
A comunicação de massa continua tendo uma característica valiosa: a capacidade de alcançar muitas pessoas simultaneamente.
Televisão e rádio, por exemplo, continuam relevantes em determinados contextos justamente pela escala, frequência, presença e capilaridade.
Em uma campanha promocional, a frequência pode ser decisiva.
Em uma campanha institucional, o alcance pode ser fundamental.
Em um lançamento, impacto e conhecimento podem determinar o resultado.
Em uma campanha regional, a presença de veículos com forte identificação local pode fazer diferença.
Não existe uma fórmula única.
O rádio continua tendo função
O rádio é um bom exemplo de como a percepção de alguns empresários pode não corresponder à realidade do consumo.
O meio possui características próprias: mobilidade, frequência, proximidade, presença local e possibilidade de comunicação ao vivo.
O rádio acompanha pessoas enquanto elas dirigem, trabalham, circulam pela cidade ou realizam tarefas cotidianas.
Além disso, sua capacidade de inserção em programas e conteúdos locais permite que determinadas mensagens sejam contextualizadas dentro da realidade da comunidade.
Não significa que rádio seja sempre a melhor escolha.
Significa que ele continua sendo uma ferramenta que precisa ser considerada quando o público e o objetivo justificarem sua utilização.
Televisão também mudou
A própria televisão deixou de ser apenas o aparelho colocado na sala de casa.
O conteúdo audiovisual passou a circular por diferentes telas, dispositivos e ambientes.
Isso alterou hábitos, mas também ampliou possibilidades.
O audiovisual continua sendo uma das formas mais poderosas de apresentar pessoas, produtos, histórias, emoções e posicionamentos de marca.
A televisão tradicional e o vídeo digital, portanto, podem ser entendidos menos como adversários e mais como partes de um mesmo universo audiovisual.
O fim da disputa entre meios
Talvez seja necessário abandonar uma discussão que já envelheceu: qual meio vai vencer?
Não há necessariamente um vencedor.
O mercado de comunicação está cada vez mais fragmentado.
E justamente por isso a estratégia precisa ser cada vez mais integrada.
Uma campanha pode utilizar televisão para gerar alcance, rádio para aumentar frequência, mídia exterior para presença territorial, portais para aprofundamento da informação e plataformas digitais para segmentação, interação e conversão.
Um meio pode gerar atenção.
Outro pode reforçar a mensagem.
Outro pode levar à ação.
Outro pode ajudar a medir o comportamento.
A comunicação como ecossistema
A palavra-chave do novo cenário talvez seja integração.
Não basta estar presente em vários canais.
É preciso fazer com que esses canais trabalhem juntos.
Uma mensagem precisa manter coerência de conceito, identidade e posicionamento, mesmo quando adaptada aos diferentes formatos.
O filme de televisão não precisa ser simplesmente transformado em anúncio digital.
O conteúdo para redes sociais não precisa reproduzir literalmente o anúncio de rádio.
Cada ambiente possui sua linguagem.
O conceito pode ser único.
A execução precisa respeitar o meio.
O grande desafio para as marcas
A multiplicação das plataformas trouxe uma consequência importante: ficou mais fácil publicar e mais difícil comunicar.
Qualquer empresa pode criar um perfil.
Qualquer pessoa pode produzir um vídeo.
Qualquer profissional pode impulsionar uma publicação.
Mas comunicação estratégica exige mais do que presença.
Exige diagnóstico, conceito, planejamento, mídia, criação, execução e avaliação.
Quanto maior o número de canais disponíveis, maior também é a necessidade de alguém capaz de organizar esse conjunto.
Não é online contra offline
A discussão mais madura não é sobre escolher um lado.
É sobre entender a função de cada ferramenta.
O digital não precisa destruir a mídia tradicional para se afirmar.
E a mídia tradicional não precisa negar o digital para continuar relevante.
As duas podem coexistir e, quando utilizadas corretamente, podem produzir resultados superiores à utilização isolada de qualquer uma delas.
No final, o consumidor continua sendo o centro da equação.
E ele não está preocupado com a guerra entre plataformas.
Ele simplesmente consome informação onde ela estiver.
Cabe às marcas descobrir onde estão as pessoas que realmente importam para seus negócios — e construir uma comunicação capaz de encontrá-las nesses diferentes ambientes.