Na propaganda eleitoral, vence quem fala da vida real
Ao observar a propaganda eleitoral dos candidatos à Presidência, procurei ir além dos slogans e das imagens bem produzidas. O que me interessa é identificar o foco escolhido por cada campanha, sua conexão com a vida do eleitor e o uso de meias-verdades, manipulações e até da inteligência artificial nessa nova batalha da comunicação política.
Nesse primeiro olhar, uma diferença é clara: Lula aposta na soberania; Flávio Bolsonaro concentra sua mensagem na economia, nos preços e nos impostos. E, do ponto de vista da comunicação, considero que a segunda escolha encontra hoje um caminho mais curto até o eleitor.
Não basta escolher um tema importante. É preciso escolher um tema que converse com a vida real das pessoas.
O brasileiro não precisa de explicação para saber que a vida está cara. Ele percebe isso no supermercado, no posto de combustível, na conta de energia e quando o salário termina antes do mês. O preço está na etiqueta, o imposto está na compra e a dificuldade está dentro de casa.
A soberania, embora seja um tema fundamental, exige tradução. Soberania sobre o quê? Sobre o território, os minerais, a segurança, as fronteiras, as instituições? E o discurso se torna ainda mais difícil quando o cidadão convive com violência, avanço das facções e desconfiança nas instituições. Soberania não pode ser apenas pronunciada. Precisa ser percebida.
Por isso, vejo maior força comunicacional na pauta econômica de Flávio. Falar em reduzir impostos, cortar desperdícios e aliviar o peso sobre o consumidor significa entrar diretamente no cotidiano do eleitor. As propostas podem e devem ser questionadas, mas o problema é imediatamente compreendido.
E há outro desafio nesta eleição: a fronteira entre propaganda, meia-verdade e mentira, agora potencializada pela inteligência artificial. Imagens, números e discursos exigirão atenção redobrada. Não bastará perguntar o que o candidato disse, mas também o que omitiu, exagerou ou retirou de contexto.
A eleição é uma disputa de projetos, mas também de narrativas. E comunicação política eficiente não é necessariamente aquela que escolhe a palavra mais grandiosa. É aquela que consegue transformar sua mensagem em algo que o eleitor reconhece na própria vida.
Entre a soberania, que precisa ser explicada, e o custo de vida, que é sentido diariamente, a economia tem uma vantagem evidente: o bolso entende a mensagem antes mesmo de o discurso terminar.