Nossa Senhora no palanque da mentira
Há algo especialmente grave quando a mentira deixa de ser apenas instrumento de disputa política e passa a usar a fé de milhões de brasileiros como combustível eleitoral.
Foi exatamente isso que aconteceu com a história de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A informação não corresponde aos fatos. Não existe projeto do candidato com esse objetivo. A história ressuscitou um projeto apresentado por outro parlamentar em 2007 e arquivado no ano seguinte. Mesmo assim, a mentira ganhou as redes, provocou indignação entre católicos e rapidamente se transformou em arma eleitoral.
Mais grave ainda é observar setores políticos que tantas vezes se apresentam como combatentes implacáveis das fake news aproveitarem uma informação falsa quando ela serve aos seus interesses. A mentira, ao que parece, deixa de ser intolerável quando prejudica o adversário.
O episódio envolvendo Lula é particularmente revelador. Questionado publicamente sobre o fato de a história ser uma fake news, não a rejeitou de imediato. Preferiu continuar falando sobre Nossa Senhora Aparecida e apresentar-se como defensor de sua condição de Padroeira do Brasil. O problema aqui não é a religião pessoal do presidente – qualquer brasileiro, católico ou não, pode respeitar Nossa Senhora Aparecida. O problema é utilizar politicamente uma narrativa cuja veracidade já estava seriamente contestada.
Isso ultrapassa a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Trata-se de algo muito maior: a banalização da mentira como método de campanha.
Quem condena fake news precisa condená-la sempre. Não existe mentira democrática e mentira antidemocrática. Não existe fake news aceitável porque prejudica o candidato de quem não gostamos. Ou a verdade é um princípio ou é apenas uma conveniência.
E quando até a fé de milhões de brasileiros é colocada a serviço dessa estratégia, o episódio se torna ainda mais lamentável. Nossa Senhora Aparecida não deveria ser transformada em cabo eleitoral de ninguém.
A política brasileira já tem conflitos demais. Não precisa agora transformar altar em palanque e devoção em instrumento de manipulação eleitoral.
A mentira não se torna verdade porque rende votos. E muito menos se torna sagrada porque alguém resolveu cobri-la com o manto de Nossa Senhora.