Na política, o tempo é sempre contado em mandatos. E, às vezes, em interesses.

Ao anunciar sua irmã, Anne Kelly Valentim, como primeira suplente, o senador Styvenson Valentim explicou que precisava de alguém de absoluta confiança, especialmente diante da possibilidade de disputar o Governo do Estado em 2030. Nada mais legítimo. O curioso é que essa justificativa abre uma interessante equação política.
Se o senador trabalha hoje pela eleição do ex-prefeito Álvaro Dias ao governo, como ficará o tabuleiro amanhã?
Afinal, em política, aliados de hoje costumam ser os adversários mais bem preparados de amanhã. Se Álvaro vencer em 2026 e fizer um governo minimamente competitivo, chegará a 2030 naturalmente candidato à reeleição. E aí surge a pergunta que ninguém faz em voz alta: Styvenson estará torcendo pelo sucesso integral do seu aliado ou apenas pelo suficiente para atravessar a eleição?
Porque o êxito de Álvaro tem um efeito colateral inevitável: dificulta o projeto de quem sonha ocupar a cadeira ao lado. Já uma derrota do ex-prefeito produziria outro resultado igualmente evidente: abriria espaço para que Styvenson se apresentasse, em 2030, como o nome natural de todo o grupo oposicionista.
É o velho dilema da política: celebrar a vitória do aliado ou administrar as consequências dela.
Resta saber até quando durará essa união. Até a diplomação? Até a posse? Até a primeira pesquisa de intenção de votos para 2030? Ou até o momento em que alguém perceber que, no mesmo grupo, existem dois projetos ocupando o mesmo CEP eleitoral?
No fim das contas, a escolha da suplente talvez tenha revelado mais sobre 2030 do que sobre 2026. Porque, na política, ninguém monta o banco de reservas pensando apenas no jogo de domingo. E, convenhamos, é difícil imaginar dois candidatos ao Governo dividindo o mesmo palanque para sempre.
Como ensinou a prática política brasileira, não há nada mais provisório do que uma aliança construída para vencer a próxima eleição. O problema começa quando ela precisa sobreviver à seguinte.