Simulando produtividade
Funcionários estão inventando reuniões para conseguir trabalhar.
Parece piada, mas uma reportagem mostrou que profissionais estão criando compromissos fictícios na agenda, abrindo salas no Teams e até compartilhando a tela apenas para aparecerem como “em reunião”. O motivo é simples: conseguir algumas horas de concentração sem serem interrompidos para poder trabalhar.
Uma executiva britânica foi ainda mais criativa. Reservou a última terça-feira de cada mês com a sigla DTRH. Durante meses, os colegas imaginaram que se tratava de algum importante comitê estratégico. Depois descobriram que significava apenas: “Danem-se Todas as Reuniões Hoje.”
A história é engraçada, mas revela um problema muito maior do que o excesso de reuniões. Ela mostra uma cultura corporativa que passou a valorizar mais a aparência de produtividade do que a produtividade em si.
Na minha opinião, boa parte desse cenário é alimentada por gestores que precisam simular que estão produzindo para postar aquela velha foto ao término da reunião. Quem realmente tem trabalho para entregar dificilmente consegue passar o dia inteiro em reuniões. Quem precisa criar, analisar, escrever, planejar ou resolver problemas sabe que concentração não combina com uma agenda tomada por chamadas de uma hora atrás da outra.
O mais curioso é que reservar duas horas para trabalhar parece quase um pecado. Mas, se o calendário exibe um “Alinhamento Estratégico”, ninguém questiona. Afinal, reunião virou símbolo de importância, enquanto tempo para pensar passou a parecer ociosidade.
Uma pesquisa citada pela reportagem mostra que 86% dos profissionais afirmam que as conversas sobre tarefas recebem prioridade nas empresas, enquanto apenas 37% enxergam espaço para criatividade. O resultado aparece nos números: organizações que passam o dia discutindo o trabalho, mas encontram cada vez menos tempo para realizá-lo.
Quando alguém precisa inventar uma reunião para conseguir produzir, o problema não é o funcionário. É a empresa que confundiu presença com resultado, interrupção com colaboração e reunião com trabalho.
No fim das contas, talvez a reunião mais produtiva seja justamente aquela que nunca aconteceu.