Gostem ou não gostem, há um elemento que a política precisa aprender a considerar com mais atenção: a fadiga. Ela não aparece facilmente nas declarações públicas, nem necessariamente nas pesquisas de intenção de voto. É um sentimento que se instala silenciosamente na sociedade quando parte do eleitorado demonstra cansaço com personagens, discursos, métodos, promessas ou com a própria maneira de fazer política.
A fadiga política não significa, necessariamente, rejeição explícita a alguém. Muitas vezes, ela se manifesta como desejo de mudança, de renovação, de descoberta, de revelação. É aquela sensação difusa de que “está na hora de mudar”, ainda que o eleitor não consiga, naquele momento, dizer exatamente para onde pretende ir.
É justamente aí que começam as chamadas surpresas eleitorais.
Ao longo de uma campanha, declarações de dirigentes, pesquisas, análises de especialistas e avaliações dos próprios candidatos constroem determinados cenários. Alguns passam a ser tratados quase como verdades definitivas. Mas eleição não é fotografia: é movimento. E, quando a fadiga se transforma em decisão, o resultado das urnas pode contrariar praticamente tudo aquilo que parecia consolidado.
É possível que o eleitor permaneça silencioso durante boa parte do processo, sem revelar completamente sua disposição de mudança. E, no momento decisivo, faça da urna o instrumento dessa manifestação.
Por isso, algumas eleições surpreendem. Não necessariamente porque as pesquisas “erraram” ou porque os analistas “não entenderam” o processo, mas porque há movimentos sociais e políticos que amadurecem longe dos holofotes. A fadiga é um deles.
Ela pode atingir governos, grupos políticos, lideranças tradicionais, discursos repetidos e até modelos inteiros de representação. E quando esse sentimento encontra uma alternativa eleitoral capaz de simbolizar a mudança, a transferência de votos pode acontecer rapidamente.
A história eleitoral demonstra que ninguém deveria considerar o eleitor definitivamente conquistado antes da abertura das urnas. Há sempre uma parcela da sociedade observando, comparando, esperando e, muitas vezes, simplesmente cansada.
Nas eleições, portanto, é preciso olhar também para aquilo que não está sendo dito.
Porque, às vezes, enquanto todos discutem quem está na frente, o eleitor já decidiu que quer mudar o jogo.
E quando a fadiga chega às urnas, costuma produzir resultados que surpreendem justamente aqueles que acreditavam que nada mais poderia mudar.