É muito fácil falar de democracia quando se está protegido atrás de um palanque, de uma rede social ou de uma entrevista previamente combinada. Difícil é encarar o eleitor de frente, sentar-se diante dos adversários e responder, sem roteiro e sem escapatória, o que pretende fazer para tirar o Brasil dos seus enormes problemas.
O debate da Band começou com agora apenas três dos seis convidados: Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury. Ausentes: o senador Flávio Bolsonaro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-governador Romeu Zema.
E aqui está o ponto que não pode ser tratado como mero detalhe de agenda.
Quem pretende governar o Brasil tem obrigação de explicar ao brasileiro o que pensa.
Não basta passar a campanha inteira falando em democracia, fazendo críticas aos adversários, apontando defeitos nos outros e alimentando as próprias bolhas políticas. Na hora decisiva, quando existe um espaço democrático para confrontar ideias, apresentar propostas e responder perguntas, alguns simplesmente desaparecem.
É uma postura cômoda. E, sobretudo, profundamente contraditória.
Porque democracia não é apenas o direito de falar quando interessa. Democracia também é o dever de comparecer quando o eleitor quer ouvir, perguntar, comparar e decidir.
O debate é justamente o momento em que o candidato deixa de falar apenas para os seus seguidores e precisa conversar com o país inteiro. É quando o eleitor pode perceber quem tem proposta, quem tem preparo, quem conhece os problemas nacionais e quem apenas repete slogans.
Faltar a um debate pode ter justificativas circunstanciais. Mas transformar a ausência em estratégia política é outra coisa.
É fugir do eleitor.
E quem foge do debate precisa explicar por quê.
Tem medo de enfrentar adversários? Não tem respostas para as perguntas? Não quer expor suas propostas? Prefere a segurança dos discursos preparados e das redes sociais ao confronto democrático de ideias?
Se não é nada disso, que expliquem publicamente.
O que não dá é para querer o voto do brasileiro sem se submeter ao julgamento do brasileiro.
Os ausentes podem até ganhar a eleição. Podem continuar liderando pesquisas. Podem ter milhões de seguidores. Mas uma coisa ninguém deveria aceitar como normal: que alguém queira ocupar a Presidência da República sem se dar ao trabalho de explicar, diante dos eleitores, como pretende governar o país.
Falar de democracia é fácil.
Democracia de verdade é comparecer ao debate, encarar o contraditório e responder ao cidadão. O resto é discurso.