O presidente Lula mudou o tom em relação ao Supremo Tribunal Federal na abertura da campanha do segundo turno. Em reunião com aliados, afirmou ser o único candidato “antissistema” e disse estar carregando na campanha o desgaste provocado pelo que chamou de “promiscuidade” no STF após as recentes denúncias envolvendo a Corte.
Lula foi além. Defendeu uma reforma no sistema Judiciário e afirmou que o país precisa discutir uma nova forma de escolha dos ministros do Supremo. Atualmente, os integrantes da Corte são indicados pelo presidente da República e precisam ser aprovados pelo Senado. O presidente também colocou em discussão a possibilidade de mandato para ministros do STF.
O petista afirmou ainda que “ninguém está acima da lei, nem os ministros da Suprema Corte” e reconheceu o desgaste da instituição: “Quando você chega numa situação em que a Suprema Corte está sob a desconfiança da sociedade, isso é muito grave”.
As declarações representam um endurecimento do discurso de Lula sobre o Supremo justamente no início do segundo turno contra Flávio Bolsonaro. Reforma do Judiciário, critérios para indicação e eventual mandato dos ministros entram, assim, no debate da campanha presidencial.
É justamente a definição de “antissistema” que produz a maior interrogação. Lula não é um personagem recém-chegado à estrutura institucional brasileira. Foi deputado federal, disputou sucessivas eleições presidenciais, chegou três vezes à Presidência da República, governou por mais de uma década e fez dez indicações para o próprio STF. Poucos políticos brasileiros tiveram participação tão longa nas instituições centrais da República.
Por isso, mais do que a força da expressão utilizada na campanha, permanece uma questão objetiva: o que Lula entende por ser “antissistema” depois de uma trajetória tão extensa exercendo o poder dentro do próprio sistema político e institucional que agora diz enfrentar?
É uma contradição aparente entre o discurso adotado no segundo turno e sua trajetória política que Lula terá de explicar ao eleitor.
E fica a pergunta inevitável: se outro candidato falasse em ‘promiscuidade’ no Supremo, dissesse que a Corte está sob desconfiança e propusesse mudar as regras de escolha de seus ministros, seria tratado apenas como ‘antissistema’ ou acusado de atacar a democracia e afrontar as instituições? Em uma democracia, o peso das palavras não pode depender de quem as pronuncia. Ou o critério vale para todos, ou deixa de ser critério. Até tú, Brutus!
