Todo ano, quando a cidade ensaia um passo novo, surge pontualmente o mais tradicional dos desfiles: o Bloco do Não. Fantasia oficial: camisa aqui sempre foiassim, bermuda nada pode mudar e um apito pendurado no pescoço para vaiar até reforma de calçada. O enredo nunca muda, aliás, mudar é proibido. Se anunciam investimento, é ameaça. Se falam em revitalização, é descaracterização. Se aparece algo moderno, sustentável e planejado, pronto: decretam luto pela memória afetiva do poste antigo. No carro alegórico principal, um enorme monumento ao deixa como está, tombado preventivamente contra qualquer risco de progresso.
O curioso é que o bloco se apresenta como guardião da tradição, mas o que preserva mesmo é o mofo histórico e o privilégio bem ventilado. Defendem cada buraco na rua como patrimônio cultural imaterial e tratam prédio abandonado como relíquia arquitetônica do descaso. São foliões do preservacionismo seletivo: não se mobilizam contra o lixo acumulado, a falta de oportunidade ou o jovem que vai embora por falta de perspectiva. Mas experimente propor algo novo e lá vem a bateria do pânico tocar o samba assim não pode. É um espetáculo: confundem crescimento com conspiração e desenvolvimento com invasão alienígena.
Enquanto isso, a cidade tenta sambar para frente, gerar emprego, melhorar a qualidade de vida, atrair investimento e abrir espaço para mais gente participar da festa. Mas o Bloco do Não insiste em atravessar a avenida gritando que qualquer avanço é heresia urbanística. No fundo, não é amor à história, nem a Natal, é medo do futuro. Só que há um detalhe incômodo para os foliões do atraso: o tempo não anda em marcha à ré. E por mais que apitem, esperneiem e joguem confete de preconceito, a bateria do progresso passa. E passa em ritmo de samba-enredo campeão.