A encruzilhada política de Fátima Bezerra.
A governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, está diante de uma das decisões mais difíceis da sua carreira política. O projeto pessoal de disputar o Senado sempre esteve no horizonte, mas o cenário atual transformou esse movimento em uma aposta de alto risco.
O problema central é político e administrativo. O governo enfrenta níveis elevados de desaprovação, e deixar o cargo nesse contexto significa abrir espaço para que quem assumir tenha acesso completo à máquina pública e às contas do Estado. Em política, isso tem nome: entregar ao adversário a oportunidade de fazer a “radiografia” da gestão. Auditorias, relatórios e exposição da situação fiscal podem rapidamente se transformar em munição eleitoral contra quem governou.
Mas o quadro ficou ainda mais delicado por causa da própria sucessão.
O vice-governador, Walter Alves, já declarou que não pretende assumir o governo e que será candidato a deputado estadual. Na linha sucessória aparecem o presidente da Assembleia Legislativa e o presidente do Tribunal de Justiça. Nos bastidores, porém, nenhum deles demonstra qualquer entusiasmo em herdar um governo desgastado para um mandato curto e politicamente espinhoso.
Quando ninguém quer assumir, surge uma alternativa prevista na Constituição: a eleição indireta de um governador pela Assembleia Legislativa.
Ou seja, ao deixar o cargo, a governadora corre o risco de ver surgir um governador tampão escolhido pelos deputados – alguém sem compromisso político com o seu grupo e com liberdade total para reorganizar o governo, expor problemas administrativos e construir sua própria narrativa sobre a gestão que terminou.
Seria, na prática, entregar o controle político do Executivo a um ator imprevisível às vésperas da eleição.
Há ainda um fator clássico do poder: a máquina pública. Sair do governo significa perder o controle de programas, da estrutura administrativa e de uma rede significativa de cargos comissionados que sustenta qualquer base política. A troca de comando implicaria a substituição imediata desse contingente, enfraquecendo drasticamente o campo governista.
Ficar também não é simples. Se permanecer no cargo, Fátima Bezerra abre mão do Senado e passa a depender diretamente do cenário nacional. Uma eventual reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva poderia garantir espaço no governo federal e mantê-la no jogo político. Sem isso, o risco é enfrentar quatro anos fora do poder, um intervalo que, muitas vezes, marca o início do ocaso de lideranças tradicionais.
Enquanto isso, novas forças se organizam dentro do próprio partido. A deputada federal Natália Bonavides representa uma geração mais jovem, com capital político preservado e crescente protagonismo dentro do PT no estado.
No fim das contas, a governadora vive uma armadilha política rara: se sair do governo, corre o risco de entregar o poder e o discurso aos adversários; se ficar, pode ver o tempo trabalhar contra a própria carreira.
Entre o desejo de subir ao Senado e o medo de perder o controle do presente, Fátima Bezerra parece cada vez mais cercada por uma realidade dura da política: às vezes, o movimento mais desejado é justamente o mais perigoso. E aí, Fatima sai ou fica?