A pré-campanha no Rio Grande do Norte conseguiu uma proeza rara: praticamente eliminou o debate sobre o futuro e transformou o processo eleitoral numa espécie de tribunal improvisado, onde cada candidato parece mais preocupado em justificar o passado, ou o presente mal resolvido, do que em propor qualquer coisa que se pareça com um plano de desenvolvimento para o Estado. O resultado é um espetáculo previsível e pouco inspirador, em que sobra acusação e falta projeto.
De um lado, a governadora Fátima Bezerra e seu pré-candidato, Cadu Xavier, entram na disputa com a desconfortável e nada invejável tarefa de tentar explicar o desempenho da gestão estadual diante de índices de desaprovação que já se tornaram um dado político incontornável no debate público. Em vez de agenda propositiva, o que se desenha é uma longa defesa oral permanente, como se a campanha fosse uma auditoria contínua das finanças do Estado.
No outro polo, o ex-prefeito da capital, Álvaro Dias, parece que vai passar boa parte da disputa rebatendo críticas sobre obras inacabadas e promessas que ficaram pelo caminho, especialmente aquelas que dependiam de articulação e recursos federais que, segundo seus aliados, não fluíram como deveriam.
Já o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, que lidera as pesquisas e, por isso mesmo, virou alvo preferencial, entra no jogo eleitoral recebendo o tratamento clássico destinado a quem está na frente: uma combinação generosa de ataques, insinuações e tentativas sistemáticas de desgaste antecipado. No fim das contas, a lógica é velha conhecida da política: quando não se consegue alcançar o líder, tenta-se, ao menos, arranhar sua imagem, porque em disputa acirrada, ninguém investe energia em quem já não representa ameaça.
No fim, a pré-campanha potiguar vai se consolidando como um retrato quase didático da política brasileira recente: uma disputa em que a polarização nacional serve de trilha sonora, enquanto o conteúdo local fica em segundo plano. E assim, entre justificativas, acusações e estratégias de sobrevivência eleitoral, o eleitor segue esperando o elemento mais raro de todos nesse momento: alguém disposto a falar menos do adversário e mais do futuro do Rio Grande do Norte.