Radar, multas e buracos: o Estado na vida do cidadão.
Viajar entre Natal e Recife, pela BR-101 e pelas vias urbanas das cidades, deixou de ser apenas um deslocamento rodoviário. Tornou-se um percurso de tensão permanente. O motorista já enfrenta buracos, remendos, desvios, erosões e trechos castigados pela falta de manutenção. Como se não bastasse, precisa conviver com uma sucessão quase interminável de radares eletrônicos e mudanças bruscas de velocidade que transformam a viagem numa experiência desgastante e desconfortável.
Em Natal, praticamente todas as grandes avenidas possuem equipamentos de fiscalização eletrônica. Nas vias estaduais e federais, a situação se multiplica ao longo do trajeto. Em muitos pontos, radares próximos operam com velocidades completamente diferentes — 40, 50, 60, 80 e até 100 km/h — sem que exista, para o motorista comum, qualquer lógica clara ou justificativa técnica perceptível. O resultado é um ambiente de insegurança e apreensão constante.
O cidadão passa a dirigir olhando mais para placas, painéis e velocímetros do que para a própria estrada. A sensação é de que o objetivo deixou de ser exclusivamente educativo ou preventivo. Afinal, qual é a prioridade? Garantir segurança viária ou incomodar o cidadão para demonstrar a força permanente do Estado sobre ele? É realmente necessário impor um padrão de trafegabilidade que produz apenas ansiedade, desconforto e medo de punição?
Defender a revisão desse modelo não significa ser contra a fiscalização. Radares eletrônicos são importantes e indispensáveis em áreas sensíveis, como em frente a escolas, hospitais, unidades de saúde, cruzamentos perigosos e locais de grande circulação de pedestres. O problema começa quando a fiscalização perde razoabilidade, coerência e transparência, passando a transmitir à população uma nítida sensação arrecadatória.
Percorrer quase 300 quilômetros entre Natal e Recife exige hoje atenção absoluta a uma verdadeira coleção de armadilhas viárias: mudanças repentinas de velocidade, pardais sucessivos, trechos esburacados, desvios improvisados e sinalizações muitas vezes confusas. Viajar deixou de ser algo minimamente fluido para se tornar um teste contínuo de paciência.
É preciso que a sociedade comece a discutir seriamente a chamada indústria da multa. Não para defender imprudência ou excessos ao volante, mas para exigir equilíbrio, bom senso e respeito ao cidadão. Segurança no trânsito não pode ser confundida com perseguição administrativa nem com mecanismos excessivos de arrecadação. O motorista brasileiro merece estradas melhores, sinalização coerente e fiscalização inteligente, não um percurso inteiro baseado na sensação permanente de punição.