Enquanto a opinião pública acompanha a movimentação dos pré-candidatos ao Governo do Rio Grande do Norte, uma disputa paralela, silenciosa e profundamente estratégica começa a ganhar corpo nos bastidores da política potiguar. Mais do que votos para o Executivo, os grandes grupos políticos do Estado estão negociando poder institucional e o prêmio mais cobiçado desse jogo atende pelo nome de Presidência da Assembleia Legislativa em 2027.
O movimento revela uma mudança importante na lógica das alianças. Não se trata apenas de quem apoiará quem na corrida ao Governo. O que está em discussão é quem controlará a governabilidade futura, a relação entre os poderes e o comando político do Legislativo estadual pelos próximos anos.
No centro desse tabuleiro está o deputado Ezequiel Ferreira.
Presidente da Assembleia há anos e reconhecido como um dos articuladores habilidosos da política estadual, Ezequiel se tornou peça-chave na formação das chapas majoritárias. O motivo é simples: mesmo diante do entendimento predominante entre especialistas de que não poderá disputar novamente a Presidência da Casa em 2027 – a lei não permite – , o deputado continua controlando um grupo político coeso e influente dentro do parlamento.
E é exatamente aí que surge uma das ofertas mais relevantes feitas pelo grupo governista, capitaneado pelo PT.
Nos bastidores, interlocutores apontam que o pacote de atração montado para conquistar o apoio de Ezequiel inclui um compromisso político de peso: o apoio da futura bancada governista ao nome indicado pelo grupo do atual presidente da Assembleia para sucedê-lo no comando da Casa.
Na prática, o cálculo é poderoso.
Somados os deputados alinhados ao governo com os parlamentares ligados a Ezequiel, forma-se um grupo capaz de decidir o futuro presidente da Assembleia Legislativa. Ou seja: ainda que Ezequiel não permaneça pessoalmente no cargo, seu grupo político seguiria mantendo influência direta sobre a estrutura de poder do Legislativo estadual.
A proposta é considerada um dos pilares centrais dessa tentativa de aproximação.
Mas o martelo ainda não foi batido.
Aliados do presidente da Assembleia admitem reservadamente que o cenário permanece indefinido, principalmente em razão da performance considerada abaixo do esperado do candidato governista nas pesquisas de intenção de voto. A avaliação interna é de que Ezequiel, experiente e pragmático, dificilmente fará um movimento definitivo antes de enxergar maior estabilidade eleitoral no projeto que pretende apoiá-lo.
Enquanto isso, outros grupos avançam em silêncio na mesma direção.
O pré-candidato Álvaro Dias, ex-prefeito de Natal, já teria definido um compromisso político claro para a Assembleia Legislativa em caso de vitória ao Governo: o apoio ao deputado estadual Tomba Farias para a Presidência da Casa.
A sinalização foi interpretada nos bastidores como uma antecipação da disputa institucional. Não basta vencer a eleição estadual. É preciso chegar ao poder já com uma arquitetura de sustentação pronta dentro do parlamento.
Mas talvez o cenário mais complexo esteja sendo desenhado dentro da federação União Progressista.
No grupo político do candidato que hoje lidera as pesquisas de intenção de voto, a discussão sobre a futura Presidência da Assembleia ainda permanece aberta, embora já exista uma movimentação considerada avançada em torno do deputado Kleber Rodrigues.
Nos bastidores, interlocutores afirmam que o nome de Kleber vem consolidando apoios importantes e ampliando espaços de articulação dentro do grupo.
Ao mesmo tempo, outra hipótese continua sendo discutida de forma mais ampla: uma possível candidatura do deputado Galeno Torquato, nome que também desperta atenção em setores da federação e mantém diálogo em diferentes correntes políticas.
O fato é que, antes mesmo da campanha ganhar as ruas oficialmente, a Assembleia Legislativa já virou peça central da sucessão estadual.
E talvez esse seja o aspecto mais intrigante da política potiguar neste momento: enquanto o debate público ainda gira em torno de nomes, pesquisas e alianças eleitorais, os grupos políticos parecem concentrados em outra pergunta, quem controlará o poder depois da vitória.
Porque no RN de 2026, a disputa pelo Governo não começa no Palácio. Começa, silenciosamente, nos corredores da Assembleia.