A política brasileira definitivamente abandonou qualquer compromisso com o constrangimento. A senadora Zenaide Maia resolveu sinalizar, com toda tranquilidade do mundo, que votará em Lula para presidente, embora seu partido, o PSD, tenha Ronaldo Caiado como pré-candidato ao Planalto.
Na prática, a senadora seguirá no partido de Caiado, participará de uma legenda que abriga sua pré-candidatura presidencial, mas já anunciou antecipadamente que seu voto será destinado ao principal adversário dele. É a política brasileira atingindo níveis quase artísticos de flexibilidade.
No passado, chamavam isso de contradição. Hoje atende pelo nome de articulação.
A verdade é que os partidos brasileiros já não funcionam como agremiações ideológicas. Viraram coworkings eleitorais: cada um ocupa uma sala, usa o mesmo café, mas trabalha para projetos completamente diferentes.
Caiado deve ter recebido a notícia com a serenidade de quem descobre que o motorista da campanha pediu Uber para o concorrente.
Ainda assim, é preciso reconhecer: Zenaide ao menos foi sincera. Em Brasília, isso já representa um avanço civilizatório considerável.