A fila do INSS vem caindo. A que custo?
Os números divulgados parecem positivos. Fala-se em redução da fila, mutirões e aumento de produtividade nas análises do INSS. Na teoria, isso representaria eficiência administrativa. Mas, na prática, a pergunta necessária é outra: a que custo essa fila está diminuindo?
A realidade enfrentada diariamente por segurados e profissionais do Direito Previdenciário revela um cenário bem diferente do discurso institucional. A fila vem caindo, sim. Mas, em muitos casos, à custa de negativas apressadas, análises superficiais e decisões que ignoram documentos, histórico contributivo e até limitações evidentes de saúde.
Para quem está do outro lado, não existe “estatística”. Existe desespero. Existe o trabalhador adoecido sem renda. Existe a mãe que aguarda um benefício assistencial para sustentar o filho. Existe o segurado incapacitado que recebe um indeferimento padronizado sem sequer compreender o motivo real da negativa.
E talvez um dos pontos mais preocupantes seja justamente a transferência silenciosa desse problema para o Poder Judiciário. O que deveria ser resolvido administrativamente passa, quase sempre, a depender de uma ação judicial. O cidadão enfrenta meses de desgaste emocional e financeiro para conseguir um direito que já poderia ter sido reconhecido desde o início.
Enquanto isso, divulgar números de produtividade virou prioridade. Mas reduzir fila não pode significar aumentar injustiças. Eficiência administrativa não pode ser construída sobre negativas em massa.
No fim, o problema não desaparece. Ele apenas muda de lugar: sai da fila do INSS e entra na fila do Judiciário. E quando o acesso ao direito passa a depender de resistência e judicialização, talvez o sistema esteja falhando justamente com quem mais precisava ser protegido: os mais humildes.