Lula e o risco da palavra sem freio.
A comunicação sempre foi uma das maiores forças políticas de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas o que antes representava uma vantagem estratégica parece estar se transformando em um problema. O presidente fala muito, fala sobre quase tudo e, não raramente, acaba produzindo mais repercussão por declarações controversas do que pelas ações de seu governo. Quando as palavras passam a gerar mais debate do que os resultados, é legítimo questionar se a comunicação presidencial está cumprindo o seu papel ou se está criando dificuldades desnecessárias para quem governa.
Não se trata de um episódio isolado ou de uma frase tirada de contexto. O que chama atenção é a recorrência. Em discursos, entrevistas e eventos públicos, Lula frequentemente faz comparações controversas, emite opiniões que geram desconforto ou adota um tom de confronto que deveria ser incompatível com a função de chefe de Estado. Muitas vezes, a repercussão de suas palavras acaba ofuscando as pautas que o próprio governo gostaria de destacar.
Também chama atenção a insistência em dividir o cenário político entre aliados legítimos e adversários que seriam extremistas, fascistas ou inimigos da democracia. Evidentemente, há grupos radicais que merecem crítica e vigilância. Mas quando a rotulação se torna rotina, corre-se o risco de empobrecer o debate público e transformar qualquer divergência em confronto moral. A democracia exige firmeza contra os extremismos, mas também exige capacidade de conviver com a divergência.
O problema não é Lula ter opinião. Presidentes devem ter opinião. O problema surge quando a Presidência parece perder o senso de medida. O cargo exige mais do que convicção; exige autocontrole. Exige compreender que cada palavra pronunciada pelo chefe da nação possui repercussões políticas, econômicas e diplomáticas. A fala presidencial não é uma conversa informal de palanque. Ela tem consequências.
Há uma diferença importante entre ser espontâneo e ser imprudente. Entre ser autêntico e falar sem avaliar os impactos do que está sendo dito. Em alguns momentos, Lula parece governar ainda sob a lógica da campanha permanente, como se estivesse disputando votos todos os dias. Mas presidentes não são eleitos para alimentar polarizações. São eleitos para liderar o país.
A questão que se impõe é simples: quem está filtrando o presidente? Quem está disposto a alertá-lo quando uma declaração cria mais problemas do que soluções? Porque a sucessão de controvérsias sugere que o freio institucional da comunicação presidencial está falhando. E quando isso acontece, o desgaste não é apenas do governante. É da própria Presidência da República.
Um líder político pode se dar ao luxo de provocar. Um chefe de Estado, não. E talvez esteja faltando justamente isso ao presidente Lula: menos impulso, mais prudência; menos palanque, mais Presidência.
Nenhum presidente perde autoridade por falar pouco. Muitos, porém, já perderam parte dela por falar sem medir as consequências. A prudência nunca foi inimiga da liderança; é uma de suas maiores virtudes.