Natal: da Cidade do Sol à cidade barulhenta?
Ao longo de sua história, Natal recebeu títulos que traduzem sua beleza, sua importância estratégica e sua riqueza cultural.
Foi chamada de Cidade do Sol, pela luminosidade que a acompanha durante quase todo o ano. De Noiva do Sol, numa imagem poética que exaltava sua delicadeza. Tornou-se a Esquina do Continente, pela posição geográfica privilegiada que a aproxima da África e do mundo. É também a Cidade dos Reis, berço do histórico Forte dos Reis Magos e de uma história iniciada no Natal de 1599.
Natal também ganhou reconhecimento como Capital Espacial do Brasil, graças à vocação aeroespacial inaugurada pela Barreira do Inferno. É o Paraíso das Dunas, cenário único moldado pelo vento e pelo mar. É a Terra de Câmara Cascudo, um dos maiores intelectuais brasileiros, que dedicou sua vida a preservar nossa cultura e identidade. E muitos escritores a eternizaram como a Cidade Onde o Vento Mora, porque aqui o vento não é apenas um fenômeno da natureza; faz parte da alma da cidade.
São definições construídas ao longo do tempo. Todas carregadas de orgulho.
Infelizmente, uma nova denominação parece estar sendo escrita no cotidiano dos natalenses: a Cidade Barulhenta.
O ronco ensurdecedor de motocicletas com escapamentos adulterados, carros com descargas abertas, paredões de som, bombas e fogos de estampido transformaram o silêncio em artigo de luxo. Em qualquer hora do dia, e principalmente da noite, o barulho invade casas, hospitais, escolas, igrejas e espaços públicos.
Quem trabalha em casa perde a concentração. Quem estuda tem dificuldade para aprender. Crianças acordam assustadas. Idosos sofrem. Pessoas com transtorno do espectro autista enfrentam crises. Animais entram em pânico. Doentes deixam de descansar.
E o mais preocupante é que essa situação parece estar se tornando normal.
Não está.
Barulho excessivo não é sinônimo de liberdade. É desrespeito.
Uma cidade que sempre foi conhecida pelo sol, pelo vento, pela hospitalidade e pela qualidade de vida não pode aceitar ser reconhecida pelo excesso de ruído.
Natal merece continuar sendo a Cidade do Sol, a Noiva do Sol, a Esquina do Continente, a Cidade dos Reis, a Capital Espacial do Brasil, o Paraíso das Dunas, a Terra de Câmara Cascudo e a Cidade Onde o Vento Mora.
Não a cidade onde ninguém consegue mais ouvir o próprio vento.
Ainda há tempo para impedir que a mais triste das denominações se consolide.
Porque uma cidade bonita também precisa ser uma cidade respeitosa. E respeitar o silêncio é, antes de tudo, respeitar as pessoas.