
O alerta vindo de Pequim merece atenção. Ao informar que o Brasil já alcançou 80% da cota anual de exportação de carne bovina estabelecida pela China, o Ministério do Comércio chinês deixa claro que a aplicação de medidas de salvaguarda deixou de ser uma possibilidade remota para se tornar um cenário concreto. Caso a cota seja ultrapassada, os embarques brasileiros poderão ser submetidos a uma tarifa adicional de 55%, conforme determinação anunciada pelo governo chinês.
Mais do que um episódio isolado, o caso evidencia uma realidade que muitas vezes é ignorada nos debates econômicos: o protecionismo continua sendo uma ferramenta amplamente utilizada pelas maiores economias do mundo. Em diferentes momentos, Estados Unidos, União Europeia, China e outras nações recorrem a tarifas, cotas, subsídios e barreiras regulatórias para proteger setores considerados estratégicos.
Durante décadas, o discurso predominante foi o da liberalização dos mercados e da livre circulação de mercadorias. Na prática, entretanto, quando interesses nacionais são colocados em jogo, prevalece a defesa da produção doméstica. A China, principal destino da carne bovina brasileira, demonstra que nem mesmo os maiores beneficiários da globalização abrem mão de mecanismos destinados a preservar seus produtores.
Para o Brasil, a situação deve servir como um importante sinal de alerta. A elevada dependência de poucos mercados compradores aumenta a vulnerabilidade das exportações nacionais. Diversificar destinos, ampliar acordos comerciais e fortalecer a competitividade da indústria e do agronegócio brasileiros são medidas indispensáveis para reduzir riscos futuros.
O episódio também reforça uma lição histórica: no comércio internacional não existem relações permanentes de conveniência, mas interesses permanentes. O protecionismo, longe de ser uma exceção, tornou-se parte integrante da estratégia econômica contemporânea. E o Brasil precisa compreender essa realidade para atuar com maior pragmatismo, antecipando movimentos e defendendo, com a mesma firmeza, os interesses nacionais.