Cadu procura deixar a sombra de Fátima
A entrevista concedida por Cadu Xavier ao Correio de Hoje talvez seja o primeiro movimento mais claro de reposicionamento depois da sua pré-campanha. Ao afirmar que “Fátima é minha líder, mas sou diferente dela”, o candidato do PT faz mais do que um gesto de lealdade política. Ele procura construir uma identidade própria e, ao fazê-lo, acaba transmitindo uma mensagem que merece atenção.

A reportagem destaca uma passagem reveladora. Segundo Cadu, a governadora Fátima Bezerra priorizou, ao longo de sua gestão, a recuperação dos direitos e das condições dos servidores públicos. Ele afirma que pretende preservar essa valorização, mas ampliar o foco para infraestrutura, desenvolvimento e qualidade dos serviços públicos.
Essa diferenciação não parece casual. Ao dizer que seu eventual governo não será uma simples continuidade, Cadu sugere que o modelo atual, por si só, não basta para sustentar sua candidatura. É um reconhecimento implícito de que existe espaço, e talvez necessidade eleitoral, para apresentar algo além daquilo que foi entregue pela atual administração.
Até aqui, sua pré-campanha esteve voltada muito mais para dentro do que para fora. O discurso buscou consolidar apoios no campo governista e dialogar prioritariamente com a militância e o público interno. Nesse processo, o técnico moderado e preparado acabou cedendo espaço a um personagem mais identificado com o estilo tradicional das campanhas petistas. Houve dancinhas, gestos ensaiados, performances para redes sociais e um esforço evidente para vestir uma identidade política que, para muitos observadores, parecia pouco compatível com a imagem construída por Cadu ao longo da vida pública.
O resultado foi uma comunicação em que a forma, muitas vezes, chamou mais atenção do que o conteúdo.
A entrevista ao Correio de Hoje dá sinais de uma mudança de rumo. Parece surgir novamente o Cadu técnico, disposto a falar de gestão, prioridades e políticas públicas. Mais importante: disposto a reconhecer que a campanha exige diálogo com toda a sociedade, e não apenas com sua base política.
O desafio, entretanto, é enorme. Ao defender uma agenda voltada para infraestrutura, saúde, desenvolvimento econômico e melhoria dos serviços públicos, o candidato inevitavelmente remete o eleitor à avaliação do governo que ajudou a construir. E é justamente aí que reside o principal dilema de sua candidatura.
O Rio Grande do Norte convive com críticas à situação das rodovias estaduais, às dificuldades da saúde pública, aos problemas enfrentados pela educação, aos atrasos e impasses envolvendo fornecedores, às denúncias sobre retenção de consignados de servidores sem o devido repasse às instituições financeiras e às recorrentes reclamações sobre o abastecimento de medicamentos na Unicat. Na área da segurança pública, indicadores recentes também alimentam o debate sobre o aumento da violência e dos desafios enfrentados pelo Estado.
Ao propor fazer diferente, Cadu abre espaço para uma pergunta inevitável: se reconhece a necessidade de mudar prioridades, essa necessidade decorre de limitações do governo que integra ou apenas de uma nova estratégia eleitoral?
Essa talvez seja a principal questão inaugurada por sua entrevista.
Os primeiros sinais desse reposicionamento já haviam aparecido quando o candidato passou a adotar a identificação de “Cadu de Lula” em vez de “Cadu de Fátima”. Para muitos analistas, foi uma tentativa de deslocar o eixo de sua identidade política da gestão Fátima Bezerra para a liderança nacional do PT, movimento que agora ganha contornos mais explícitos ao afirmar que pretende fazer um governo diferente do atual, embora sem romper politicamente com sua principal líder.
A campanha que começa a se desenhar parece indicar que Cadu Xavier compreendeu que, para conquistar novos eleitores, não bastará ser o candidato da continuidade. Será preciso convencer o eleitorado de que é capaz de representar mudança sem romper com o governo que o lançou.
E essa é uma equação política muito mais difícil de resolver do que parece.