“O mundo não é de esquerda. O mundo é do caminho do meio. Essa é a verdade. Eu nunca fui esquerdista; eu era um líder sindical.”
A declaração foi feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a cúpula do G7, na França, em conversa com a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, e o chanceler alemão Friedrich Merz e captada por um microfone aberto.
A frase causou surpresa porque Lula é fundador do Partido dos Trabalhadores e, há mais de quatro décadas, é a principal referência da esquerda brasileira e latino-americana.
Se a declaração for levada ao pé da letra, talvez seja preciso reescrever parte da história política recente do Brasil. Afinal, milhões de apoiadores passaram anos defendendo Lula como líder da esquerda, enquanto milhões de adversários o criticaram exatamente pelo mesmo motivo. Pelo visto, os dois lados podem ter recebido a notícia com a mesma expressão de surpresa.
Ao que tudo indica, depois de décadas sendo chamado de esquerdista pelos adversários e de líder da esquerda pelos aliados, Lula resolveu apresentar uma nova versão de si mesmo: a de um sindicalista pragmático adepto do “caminho do meio”. Resta saber se a biografia concorda.
A declaração não reescreve a trajetória de Lula, mas ajuda a explicar a lógica de uma pré-campanha. Depois de décadas como principal símbolo da esquerda brasileira, o presidente agora parece empenhado em destacar uma versão mais moderada de si mesmo. Não porque a história tenha mudado, mas porque os votos que decidem eleições costumam estar menos nas extremidades e mais no centro. Os livros podem ficar como estão; o que está sendo atualizado é a estratégia eleitoral.
Portanto, olho vivo.