
A frase “Se Flávio vence, você perde”, utilizada na propaganda atribuída à campanha de Lula, não se limita a advertir sobre possíveis mudanças de governo. A peça anuncia, como se fossem consequências certas da eleição, perdas de direitos trabalhistas e benefícios sociais, sem apresentar provas das medidas que provocariam esses resultados.
O problema é particularmente sério porque envolve conquistas como o 13º salário, as férias remuneradas e o FGTS, protegidas pela Constituição Federal. A mensagem mistura esses direitos com programas sociais e os apresenta sob uma mesma ameaça, sem distinguir suas diferentes garantias legais.
A controvérsia já ultrapassou o terreno da retórica eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral determinou a retirada de um vídeo da campanha de Lula que utilizava o mesmo mote, por atribuir ao adversário cortes específicos em programas sociais sem respaldo mínimo em seu plano de governo ou em declarações públicas. A decisão não se refere necessariamente à imagem aqui reproduzida, mas evidencia a gravidade da questão.
O ponto central é a responsabilidade de quem faz uma afirmação dessa natureza. Não basta insinuar que milhões de brasileiros perderão direitos e benefícios. É necessário demonstrar, com documentos e propostas concretas, de onde vem a ameaça anunciada.
A liberdade de crítica política é indispensável à democracia. Mas não elimina o dever de distinguir fatos, previsões e acusações. Quando essa fronteira desaparece, o eleitor deixa de receber informações necessárias ao julgamento das propostas e passa a ser confrontado com ameaças cujo fundamento não foi demonstrado.
A democracia não dispensa o confronto político. Dispensa, isto sim, que o medo seja apresentado como prova e que a repetição de uma acusação seja confundida com a demonstração de sua veracidade.
A mentira já é grave por si só. Mas quando é usada deliberadamente para espalhar medo, explorar a insegurança das pessoas e conquistar votos, deixa de ser apenas uma falsidade: torna-se uma agressão à inteligência do eleitor e ao próprio princípio da democracia.