
O segundo turno mal começou e a campanha presidencial já mergulha numa estratégia perigosíssima: transformar o medo em instrumento de conquista do voto.
A primeira história espalhada é a de que Flávio Bolsonaro acabará com o Bolsa Família. A acusação circula especialmente onde ela pode provocar mais temor: entre as famílias que dependem do benefício. Só há um problema elementar: Flávio declarou publicamente que manterá o Bolsa Família e até o reajuste anunciado pelo governo Lula.
Pode-se desconfiar da promessa. Pode-se cobrar garantias. Pode-se confrontar o candidato. O que não se pode é transformar uma declaração de manutenção do programa em seu exato contrário e vendê-la ao eleitor como verdade.
Agora aparecem outras duas acusações igualmente graves.
A primeira é que Flávio Bolsonaro quer o brasileiro trabalhando sete dias por semana. A própria primeira-dama Janja colocou essa afirmação em circulação. Flávio critica a proposta do governo para o fim da escala 6x, sobretudo nesse momento de disputa eleitoral, e defende maior flexibilidade e negociação nas relações de trabalho. Isso é fato e deve ser debatido. Mas daí a afirmar que ele quer obrigar o brasileiro a trabalhar sete dias por semana existe uma distância que precisa ser preenchida com provas, não com propaganda.
A segunda é ainda mais assustadora para milhões de famílias: “Flávio Bolsonaro vai acabar com o Farmácia Popular.” Janja também fez essa afirmação. O programa não aparece especificamente no plano de governo do candidato – ausência que pode e deve ser questionada. Mas ausência não é anúncio de extinção. Não existe proposta de Flávio determinando o fim do Farmácia Popular, parece apenas uma mentira, mais uma.
É assim que uma eleição começa a ser envenenada: uma mentira vira certeza, uma interpretação vira fato e o medo vira método eleitoral.
A campanha de Lula adotou uma estratégia baseada na advertência de que programas sociais estariam ameaçados numa eventual vitória do adversário. Quando a acusação ultrapassa aquilo que os fatos demonstram, deixa de ser debate político e entra no terreno da desinformação.
E o brasileiro precisa estar especialmente atento a isso.
Não se pode brincar com o medo de quem precisa do Bolsa Família para colocar comida dentro de casa. Não se pode brincar com o medo de quem depende do Farmácia Popular para conseguir seus medicamentos. Não se pode dizer ao trabalhador que alguém pretende obrigá-lo a trabalhar sete dias por semana sem apresentar a proposta que sustente uma acusação tão grave.
Isso não é um detalhe de campanha. É mexer deliberadamente com as maiores vulnerabilidades das pessoas para influenciar seu voto.
O eleitor brasileiro merece respeito. Merece conhecer aquilo que Lula realmente propõe e aquilo que Flávio realmente propõe. E depois decidir livremente quem merece governar o país.
O que não merece é ser empurrado para uma decisão pelo medo.
O segundo turno precisa ser uma disputa entre projetos, propostas e biografias – não uma usina de acusações apresentadas como fatos sem a correspondente prova.
Porque, quando a verdade deixa de ser um limite para conquistar votos, a primeira vítima é o eleitor. E a segunda é a própria democracia.
Convenhamos, a politica brasileira é uma vergonha, né não?