PEC propõe mandato sem direito à prorrogação.
O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, decidiu entrar em campo com uma proposta que mexe com um dos principais motores da política nacional: a reeleição. Ele anunciou que vai apresentar uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) para acabar com a recondução aos cargos do Executivo.
A justificativa é quase terapêutica: livrar o governante da síndrome do candidato permanente. Segundo o senador, o modelo atual transformou o mandato num longo aquecimento para a eleição seguinte, onde governar e fazer campanha passaram a caminhar juntos. A ideia é permitir que o presidente administre o país sem precisar, ao mesmo tempo, administrar a própria reeleição.
A proposta ainda terá que enfrentar o labirinto do Congresso, reunindo assinaturas e passando por comissões até chegar ao plenário. Mas já entra no debate com um efeito inevitável: em Brasília, onde quase tudo admite prorrogação, a ideia de mandato sem renovação soa quase revolucionária.
Sua eventual aprovação inverteria a lógica que hoje orienta o poder. A reeleição funciona como uma bússola invisível: governa-se com um olho na administração e o outro nas pesquisas. O medo do desgaste produz governantes cautelosos, que muitas vezes adiam reformas e evitam decisões mais ousadas. O mandato vira um ativo eleitoral, e o governante, no fundo, nunca deixa de ser candidato.
Sem reeleição, essa lógica muda. O mandato deixa de ser um meio e passa a ser um fim. Em vez de proteger capital eleitoral, o governante passa a investir em legado. A preocupação deixa de ser a próxima eleição e passa a ser o julgamento da própria história.
Nesse cenário, a performance ganha centralidade. O governante tende a assumir mais riscos e enfrentar temas difíceis, porque não depende da aprovação imediata para permanecer no cargo. Sai a política da sobrevivência eleitoral; entra a política da permanência histórica.
Em outras palavras, a reeleição produz administradores prudentes; o mandato único tende a produzir personagens. E, na política, personagens sobrevivem mais do que mandatos.