Confesso que até poucos dias eu sequer conhecia o candidato do Partido Missão à Presidência da República, Renan Santos. Mas uma coisa chamou minha atenção em seu discurso de lançamento da candidatura: ele apresentou cinco metas para um eventual governo.
São elas:
- Reduzir o número de assassinatos para menos de 10 mil por ano;
- Garantir que a taxa de juros não ultrapasse 6% e que o país alcance superávit nominal;
- Fazer com que nenhum estado brasileiro termine o mandato com mais beneficiários do Bolsa Família do que trabalhadores com carteira assinada;
- Reduzir em 6 mil o número de favelas, retirando cerca de 8 milhões de pessoas dessas comunidades;
- Garantir que nove em cada dez crianças estejam alfabetizadas.
É claro que falar é fácil. Prometer custa pouco. Cumprir é outra história. Toda proposta precisa ser confrontada com números, prazos, custos e capacidade de execução.
Mas o fato curioso é outro.
Num país em que as campanhas presidenciais parecem cada vez mais pobres em ideias, alguém aparecer dizendo “quero chegar a este resultado” já desperta curiosidade. Não porque as metas estejam necessariamente certas ou erradas, mas porque elas existem.
Há muito tempo o debate político brasileiro foi substituído por torcidas organizadas, slogans, vídeos de quinze segundos, ataques pessoais e disputas de narrativas. Os programas de governo quase desapareceram. A discussão sobre o futuro do país foi cedendo espaço à repetição dos mesmos discursos, das mesmas promessas vagas e da eterna polarização.
O Brasil parece viver preso a um ciclo em que quase tudo muda no discurso para que, no fim, nada mude. Governos entram e saem, mas a liturgia política continua praticamente a mesma: muito marketing, muita enganação, muita reação aos acontecimentos do dia e pouca disposição para apresentar objetivos claros pelos quais possam ser cobrados.
Talvez por isso, independentemente de quem seja o candidato, ouvir alguém estabelecer metas concretas cause tanto estranhamento. Não é porque elas estejam automaticamente corretas. É porque, infelizmente, nos acostumamos a campanhas em que quase ninguém se compromete com resultados mensuráveis.
No fim das contas, talvez o mais surpreendente não sejam as cinco metas apresentadas. O mais surpreendente é que, no Brasil de hoje, apresentar um projeto de governo tenha se tornado uma novidade.
O Brasil parece ter desaprendido a discutir o futuro, aliás, o presente também. A mudança virou uma palavra quase proibida, enquanto a mesmice domina a cena política e econômica.
Criou-se uma atmosfera em que tudo ofende, tudo gera indignação passageira e quase nada produz transformação. O debate público, muitas vezes, é consumido pelo “mimimi” das redes sociais, enquanto questões fundamentais acabam soterradas pelo barulho cotidiano.
Nesse ambiente, o falatório parece ter substituído o planejamento. Há líderes que preferem falar muito a entregar resultados, prometem o impossível, reagem ao assunto do momento e frequentemente recorrem à desinformação ou a promessas irrealizáveis para conquistar apoio. O espetáculo tomou o lugar do projeto.