A criatividade segue em estado febril nos laboratórios subterrâneos da política instalados nas imediações da Praça Sete de Setembro, em Natal. Ali, entre um café requentado, uma ligação cifrada, uma mesa de plástico estrategicamente posicionada e meia dúzia de fontes exclusivas, prospera uma das atividades mais tradicionais da política potiguar: a plantação artesanal de notícias.
Ontem, no começo da noite, a estufa da imaginação política produziu mais um espécime raro. Um verdadeiro balão de ensaio premium, cultivado com adubo orgânico de bastidor, irrigado por teorias conspiratórias e colhido ainda verde para circular nos blogs e grupos de WhatsApp antes mesmo de fazer sentido.
A fonte, dessas que falam cochichando como se estivessem prestes a revelar segredos nucleares, garantiu solenemente: “houve reunião agora à tarde e a chamada vai ser: Cadu Xavier para o Governo do Estado, Rafael Motta para vice, Ezequiel para o Senado e Samanda para suplente”. Pode divulgar mas não me cite.
A notícia correu feito fogo em mato seco e imediatamente movimentou o ecossistema da especulação profissional. Teve analista desenhando chapa, militante tentando encaixar ideologia no liquidificador e gente perguntando se a reunião aconteceu mesmo ou se tudo não passava de um surto coletivo patrocinado pelo excesso de cafeína e ansiedade eleitoral.
Nos jardins suspensos da política local, onde se planta notícia pela manhã e se desmente à tarde, a composição virou assunto obrigatório. Houve quem enxergasse uma engenharia política sofisticada. Outros classificaram como roteiro rejeitado de série da Netflix. E teve quem defendesse investigação urgente para descobrir quem anda distribuindo fertilizante vencido nos canteiros da articulação estadual.
Faltou apenas anunciar o apoio de uma federação interplanetária, incluir um influencer como coordenador de programa de governo e reservar uma vaga simbólica para o algoritmo do Instagram.
Consultados sobre a suposta obra-prima da engenharia eleitoral, os pré-candidatos citados reagiram entre o espanto, a ironia e a completa falta de informação. Nenhum conhecia sequer uma linha da proposta mirabolante. Ao final da noite, restou apenas a certeza de que, em ano pré-eleitoral, a safra de notícias plantadas promete ser ainda mais abundante que a de milho em ano de inverno bom no interior do Estado.