O debate do retrovisor
O último debate entre os candidatos ao Governo do Rio Grande do Norte, promovido pela Inter TV Cabugi, reuniu Allyson Bezerra, Álvaro Dias, Cadu Xavier e Professor Robério Paulino. Era a última grande oportunidade na televisão antes do primeiro turno para discutir o RN dos próximos quatro anos.
Mas foi, em boa medida, mais do mesmo. As mesmas acusações, a mesma cantilena sobre o ontem, a mesma tentativa de transformar adversários em responsáveis por todos os pecados da política potiguar. O futuro do Rio Grande do Norte? Esse parece ter ficado na sala de espera.
Robério Paulino demonstrou preocupação com Flávio Bolsonaro e levou a disputa nacional para o palco estadual. Nada ilegítimo. Mas, num debate para governador, talvez o eleitor também quisesse ouvir mais sobre o que fazer com o Rio Grande do Norte.
Cadu Xavier tentou colar Allyson Bezerra ao ex-governador Robinson Faria. Nesse momento, a memória política pediu direito de resposta. Robinson foi eleito governador em 2014 numa coligação com o PT, com Fátima Bezerra candidata ao Senado no mesmo grupo político e com apoio de Lula. Portanto, na tentativa de jogar Robinson no colo do adversário, Cadu esqueceu de consultar o álbum de fotografias do próprio partido.
E há outra fotografia difícil de esconder. Cadu passou sete anos à frente da Secretaria Estadual da Fazenda no governo Fátima Bezerra, deixando o cargo somente em março para disputar a eleição. Ou seja, quando o assunto é a situação financeira do Estado, não pode se apresentar apenas como comentarista da partida: esteve durante anos numa posição central da política fiscal do governo.
Álvaro Dias, o mais experiente dos quatro em diferentes cargos públicos, preferiu defender marcas de sua passagem pela Prefeitura de Natal e levou o confronto para a saúde, citando o Hospital Municipal e questionando o Hospital Metropolitano apresentado por Cadu. Pelo menos ali apareceu, ainda que por alguns momentos, uma discussão sobre realizações e propostas – algo que deveria ter ocupado muito mais espaço durante a noite.
Allyson Bezerra entrou no debate na liderança de todas as pesquisas e acabou transformado em alvo preferencial. Ficou clara a estratégia do candidato a ser abatido. Penso que não funcionou. Apanhou dos adversários e também bateu. Foi para cima de Cadu, explorou sua participação no governo Fátima e dirigiu críticas à candidata a vice, Larissa Rosado, e à sua família política.
E assim caminhou o debate: você fez, você apoiou, você estava lá, seu partido fez, seu aliado fez, sua família fez. Em determinados momentos, faltou apenas alguém interromper a discussão para fazer uma pergunta quase revolucionária: “Muito bem. E o que vocês pretendem fazer pelo RN a partir de janeiro?”
Esse talvez seja o maior problema não apenas do debate, mas de boa parte da campanha. Um Estado com enormes desafios fiscais, deficiências na saúde, segurança, educação e infraestrutura e que precisa discutir desenvolvimento, investimentos e geração de empregos merecia uma campanha recheada de ideias e projetos. Até aqui, recebeu muito mais acusações do que propostas.
O debate terminou e o retrovisor continuou enorme. O para-brisa, infelizmente, permaneceu pequeno. E ninguém governa um Estado olhando apenas para trás.