
A política brasileira está ultrapassando os limites da divergência. Para muita gente, já não basta discordar. É preciso atacar, desqualificar, cancelar e transformar quem pensa diferente em inimigo.
Perdeu-se a capacidade de ouvir. Amigos se afastam, famílias brigam, relações são rompidas e as redes sociais se transformaram em arenas onde qualquer opinião contrária pode provocar uma avalanche de insultos e agressões.
O mais preocupante é que essa intolerância começa a parecer normal. Não é. Democracia não significa pensar igual. Significa exatamente saber conviver com quem pensa diferente.
Políticos passam. Mandatos terminam. Eleições acabam. Mas amizades, famílias e relações construídas durante uma vida não deveriam ser destruídas porque duas pessoas escolheram candidatos diferentes.
O Brasil nem sempre viveu a política nesse estado permanente de hostilidade. Na nossa leitura, essa escalada foi sendo construída ao longo dos anos, em meio aos duros embates envolvendo Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Geraldo Alckmin e, mais tarde, Aécio Neves, num ambiente em que a disputa pelo poder passou a tratar adversários políticos como inimigos a serem desqualificados. O confronto político sempre existiu. O que preocupa hoje é outra coisa: a transformação da divergência em intolerância e do adversário em inimigo.
E esse talvez seja o ponto mais grave de todos. Quando se aceita que o outro precisa ser destruído simplesmente porque pensa diferente, desaparecem o diálogo, a ponderação e até o respeito pessoal. A política deixa de ser confronto de ideias e passa a ser confronto entre pessoas.
É preciso recuperar o direito de discordar sem odiar. De debater sem agredir. De defender uma ideia sem precisar destruir moralmente quem defende outra.
Nenhum político merece a sua amizade perdida. Nenhum partido vale uma família dividida. E nenhuma eleição justifica transformar o outro em inimigo.
Quando uma sociedade começa a odiar quem pensa diferente, a política deixa de ser debate e vira fanatismo. E fanatismo, seja de que lado vier, nunca foi sinal de democracia.