A mentira vestida de mudança

A mudança virou uma palavra perigosamente fácil. Está nos discursos, nos programas eleitorais, nas propagandas e na boca de governantes que passaram anos fazendo exatamente aquilo que agora juram combater.
Todo mundo promete mudar. Poucos aceitam o preço da mudança.
Porque mudar não é trocar o slogan, renovar a fotografia, vestir uma camisa diferente ou descobrir, às vésperas da eleição, que o povo está cansado. Mudança de verdade exige romper privilégios, contrariar interesses, abandonar conveniências e, sobretudo, mudar práticas.
É aí que aparecem os falsos profetas da novidade.
Há políticos que falam em renovação carregando nas costas todos os vícios da velha política. Pregam austeridade para os outros e preservam seus privilégios. Condenam acordos quando estão fora do poder e fazem acordos ainda mais convenientes quando chegam lá. Atacam o fisiologismo até o instante em que precisam dele. Falam contra desperdícios enquanto a máquina pública continua cara, lenta e frequentemente submetida aos interesses de quem governa.
Isso não é mudança. É oportunismo fantasiado de novidade.
O reacionário mais dissimulado não é necessariamente aquele que declara que deseja conservar tudo como está. É aquele que percebe que a sociedade quer mudança, apropria-se dessa palavra e passa a vendê-la como mercadoria eleitoral – sem qualquer disposição para mudar a si próprio, seu grupo, seus privilégios ou seus métodos.
Mudança verdadeira começa por comportamentos muito mais simples — e muito mais difíceis:
- Dizer a verdade, inclusive quando ela custa votos, dinheiro, prestígio ou popularidade.
- Combater privilégios, começando pelos próprios e pelos de quem está próximo do poder.
- Gastar dinheiro público com responsabilidade, entendendo que cada real desperdiçado pertence ao cidadão.
- Escolher pela competência, e não pelo parentesco, amizade, apadrinhamento ou conveniência política.
- Ouvir quem pensa diferente, porque democracia não é cercar-se de bajuladores.
- Reconhecer erros, em vez de fabricar culpados, desculpas e versões convenientes da realidade.
- Cumprir o que promete, transformando discurso em prazo, meta, resultado e prestação de contas.
- Respeitar as instituições, inclusive quando elas contrariam os interesses momentâneos de quem governa.
- Colocar o interesse coletivo acima do projeto pessoal de poder, recusando transformar o Estado em instrumento eleitoral.
- Entender o poder como serviço, e não como propriedade, patrimônio familiar, negócio, vingança ou satisfação de caprichos.
Talvez por isso a mudança verdadeira seja tão rara.
Mudar dá trabalho. Mentir que mudou é muito mais fácil.
O Brasil conhece demais os profissionais dessa segunda modalidade: mudam o discurso, a embalagem, os aliados e até as convicções conforme a conveniência. Só não mudam aquilo que realmente interessa – a relação promíscua com o poder.
E quando chega a eleição, lá estão eles novamente, rejuvenescidos pela propaganda, oferecendo o futuro com os mesmos métodos do passado.
Não são agentes da mudança. São apenas velhos interesses tentando sobreviver com uma palavra nova.