Falam muito. Desde que ninguém pergunte nada.
Há políticos que adoram falar. Desde que seja no ambiente controlado, confortável, previamente combinado e, de preferência, diante de entrevistadores domesticados pelo medo, pela conveniência ou pela dependência oficial. Fora desse cercadinho, o silêncio impera. Pergunta incômoda? Contraditório? Jornalista independente? Melhor evitar.
No Rio Grande do Norte, virou quase protocolo. A governadora Fátima Bezerra raramente concede entrevistas fora do circuito amigável. O vice-governador Walter Alves segue a mesma cartilha do silêncio seletivo. Já o presidente da Assembleia Legislativa, Ezequiel Ferreira transformou a ausência em método político: aparece pouco, fala menos ainda e evita qualquer ambiente onde não possa controlar o roteiro. A senadora Zenaide Maia também integra o seleto grupo dos que rarissimamente encaram entrevistas.
O problema não é escolher onde falar. Todo agente público tem direito à estratégia de comunicação. O problema começa quando a entrevista deixa de ser informação e vira encenação; quando só participa quem aceita não perguntar, não confrontar, não insistir. Nesse modelo, o entrevistador ideal não é jornalista – é plateia. Ou, como muitos ironizam nos bastidores da política, “miquinhos amestrados” treinados para concordar, sorrir e agradecer pela oportunidade.
A democracia exige exatamente o contrário. Homem público precisa lidar com crítica, contraponto e desconforto. Porque entrevista não é favor ao jornalista. É obrigação com a sociedade. Quem é agente público, quem governa com dinheiro público não pode escolher apenas perguntas decorativas e fugir de qualquer espaço minimamente independente.
Há também uma questão que incomoda: será que evitam entrevistas independentes porque nelas a mentira não circula livre, leve e solta? Em ambientes sem controle absoluto, a versão oficial pode ser confrontada na hora, o dado pode ser checado imediatamente e a narrativa ensaiada corre o risco de desmoronar diante de uma simples pergunta complementar. Talvez seja exatamente isso que explique o fascínio por entrevistas domesticadas: nelas, a fantasia passa por verdade sem o inconveniente do contraditório.
No fim, o silêncio seletivo revela muito. Às vezes, mais do que qualquer entrevista.