O Real: a moeda que vale menos que a intenção.
Era uma vez uma moeda chamada Real. Nasceu em 1994, cheia de moral, prometendo estabilidade, poder de compra e dignidade no carrinho do supermercado. Cresceu, apareceu, estampou o rosto da República e jurou que ia durar.
Durou. O poder de compra é que não.
Hoje, o Real anda pelas ruas do Brasil como quem pede desculpa. Você sai de casa com uma nota dobradinha na carteira, confiante, e volta com um chiclete, um boleto e um trauma financeiro. No supermercado, ele entra valente e sai humilhado. No posto de gasolina, ele nem desce do carro, sabe que não é páreo.
Aliás, nota mesmo quase não se vê mais. Nota de 1 real virou peça de museu, item de colecionador, lenda urbana. Se você encontrar uma, provavelmente vai enquadrar. Agora só se vê nota de 2 reais, porque, convenhamos, com 1 real já não dava nem para começar a conversa.
O brasileiro já desenvolveu técnicas avançadas de sobrevivência monetária: respira fundo antes de passar o cartão, finge surpresa quando vê o total da compra (“tudo isso?”), parcela o que não devia e ainda agradece quando o aplicativo oferece cashback de R$ 0,37. O Real, coitado, virou figurante da própria economia.
E não é que ele não tente. Ele se multiplica em moedas esquecidas no console do carro, em trocos acumulados na gaveta, em promessas de promoção que nunca chegam. Mas, quando chega a conta de luz, ele olha para você como quem diz: “sozinho eu não vou dar conta”.
No fim das contas, o Real continua sendo a nossa moeda – resistente, teimosa e, como o brasileiro, especialista em fazer milagre com quase nada. Só não dá mais para chamar de “poder de compra”. Talvez “poder de tentativa”.
Porque, neste país caro demais, o Real não compra quase nada, mas compra histórias. E, principalmente, compra risadas nervosas no caixa.
Minha irritação com o real já chegou ao ponto de eu abrir a carteira e ele pedir desculpa antes mesmo de eu tentar comprar alguma coisa.