O voto como resposta ao cansaço coletivo.
Há um sentimento que parece atravessar o país de Norte a Sul: o brasileiro cansou. Cansou de acordar todos os dias diante de uma nova crise, de uma nova operação transformada em espetáculo, de uma nova decisão convertida em manchete, de uma nova declaração produzida para viralizar antes mesmo de ser compreendida.
A política fala para as câmeras. A Justiça, muitas vezes, parece falar para as redes sociais. E parte da mídia, em sua busca incessante por audiência, transformou a realidade em um grande reality show institucional. O resultado é um ambiente de permanente tensão, onde tudo é urgente, tudo é histórico e tudo precisa ser consumido em tempo real.
Mas há um detalhe que muitos insistem em ignorar: o eleitor está assistindo a tudo.
Há quem ainda trate o cidadão comum como um personagem secundário da democracia, alguém incapaz de perceber excessos, contradições e conveniências. É um erro recorrente. O brasileiro pode até se mostrar silencioso, mas está longe de ser desatento. Ele observa. Compara. Guarda na memória.
Assiste ao embate entre instituições. Assiste às promessas que nunca saem do papel. Assiste à seletividade das indignações. Assiste à espetacularização das ações e das decisões que, em muitos casos, parecem concebidas para produzir impacto antes de produzir resultados.
Enquanto isso, a vida real continua. O preço dos alimentos não espera o próximo capítulo da crise política. O desemprego não tira férias. O pequeno empresário continua abrindo as portas às seis da manhã. O trabalhador continua enfrentando ônibus lotados, contas vencidas e um cotidiano que não cabe em um vídeo de trinta segundos.
Talvez o maior equívoco da nossa época seja imaginar que a repetição permanente do espetáculo produz convencimento. Nem sempre produz. Em determinados momentos, produz apenas fadiga.
E o cansaço coletivo é um fenômeno político poderoso.
A história ensina que sociedades exaustas costumam procurar respostas igualmente contundentes. Não necessariamente previsíveis, mas contundentes. O voto, afinal, continua sendo o instrumento mais eloquente de uma democracia. Ele não grita. Não ocupa as manchetes. Não participa de entrevistas. Apenas aparece, silenciosamente, na urna.
É por isso que convém não subestimar o humor do eleitor. Entre uma decisão judicial, um embate político e uma transmissão ao vivo, existe um país real tentando sobreviver. Um país que trabalha, paga impostos e observa.
E que, ao contrário do que alguns parecem acreditar, não é bobo.
Quando o cidadão se cansa do espetáculo, costuma procurar uma forma de mudar o roteiro. E, em uma democracia, essa mudança tem data, local e hora para acontecer.