BR-101: entre congestionamentos, acidentes e descaso
A BR-101, no trecho que liga a Paraíba a Pernambuco, tornou-se um monumento à incompetência e ao descaso. Não é mais uma rodovia federal; é um teste diário de resistência física, emocional e de paciência para milhares de brasileiros que dependem dela para trabalhar, produzir, investir e simplesmente cumprir seus compromissos.
Você sai de casa às 4h30 da manhã, com uma margem de segurança confortável, calculando quatro horas de viagem de Natal para chegar a Recife para um compromisso às 9h. Parece razoável. Afinal, planejamento e responsabilidade deveriam ser suficientes para garantir pontualidade. Mas não na BR-101.
Logo após João Pessoa, na altura do km 116, em Mata Redonda, a estrada simplesmente para. Duas horas e meia imóvel, sem informações, sem alternativas, sem qualquer estrutura capaz de minimizar os transtornos causados por um acidente envolvendo duas carretas. Quando o trânsito finalmente começa a fluir, surge a constatação de que uma única ocorrência foi suficiente para transformar uma das principais rodovias do Nordeste em um gigantesco estacionamento.

A viagem prossegue, mas o pesadelo continua. Igarassu e Abreu e Lima apresentam a lentidão de sempre. Mais adiante, já na chegada ao Recife, novamente o trânsito para. Mais uma hora e meia perdida por conta de uma faixa interditada para obras. Obras necessárias, evidentemente, mas que parecem eternas em uma rodovia que há décadas já não comporta o volume de veículos que recebe diariamente.
O resultado é previsível: quase oito horas para percorrer um trajeto que quando muito deveria ser feito em quatro. O prejuízo não é apenas o atraso em um compromisso. É o desgaste físico, a exaustão mental, a perda de produtividade, o aumento dos custos e a sensação de impotência diante de uma realidade que parece imutável.
A verdade é dura: a BR-101 fracassou. Velha, mal conservada, insuficiente e incapaz de atender à demanda atual, ela simboliza o abandono da infraestrutura brasileira. Não importa o dia da semana. Não importa o horário. Não importa o quanto você se programe. Sempre haverá um acidente, uma obra, um gargalo ou um congestionamento para lembrá-lo de que chegar no horário é quase um ato de sorte.
Enquanto isso, milhares de pessoas seguem perdendo horas de suas vidas dentro dos carros, ônibus e caminhões. E o mais revoltante é perceber que esse cenário já foi naturalizado. Aceitou-se como inevitável que uma viagem de quatro horas se transforme em uma jornada de oito. Aceitou-se que cidadãos tenham seus compromissos comprometidos, sua saúde afetada e sua rotina destruída.
Não, isso não é normal. Não deveria ser normal.
A BR-101 precisa deixar de ser tratada como um problema crônico e passar a ser encarada como uma prioridade. Porque uma região que pretende crescer, atrair investimentos e gerar desenvolvimento não pode continuar refém de uma estrada que, todos os dias, insiste em impedir seus cidadãos de chegarem ao destino.
Como se tudo isso não bastasse, ainda há os inúmeros radares de 40 km/h espalhados pelo percurso. Instalados sob o argumento da segurança, muitos deles acabam produzindo o efeito inverso: aumentam a retenção do fluxo, criam novos gargalos e ampliam os congestionamentos em uma rodovia que já opera muito além de sua capacidade. Afinal, de que adianta impor velocidades incompatíveis com a realidade da estrada sem oferecer alternativas, duplicações, vias marginais ou qualquer melhoria estrutural? Na BR-101, até os instrumentos criados para organizar o trânsito parecem contribuir para o caos.