A mentira sempre foi uma tentação no marketing político, mas nas últimas décadas ela deixou de ser apenas um recurso eventual para se transformar, em muitos casos, em método de comunicação. Repetida à exaustão, distribuída em massa e emocionalmente direcionada, a desinformação passou a disputar espaço com os fatos, contaminando o debate público e enfraquecendo a própria democracia.
Existe uma lógica perigosa por trás disso: a repetição constante de uma mentira produz familiaridade. E aquilo que se torna familiar acaba, para muita gente, parecendo verdadeiro. A propaganda política conhece bem esse mecanismo psicológico. Uma afirmação falsa, repetida todos os dias, em todos os meios, por diferentes vozes e sem contestação eficaz, deixa de ser percebida como suspeita. Passa a ocupar o imaginário coletivo como se fosse um fato consolidado.
Essa prática é antiga. A máxima atribuída ao ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, dizia que uma mentira repetida muitas vezes acaba sendo aceita como verdade. Ainda que a frase exata seja alvo de debate histórico, o princípio foi amplamente utilizado pelos regimes autoritários do século XX e continua vivo nas estratégias modernas de manipulação política.
Nas campanhas eleitorais, a mentira funciona como instrumento de simplificação emocional. Ela dispensa complexidade, reduz adversários a caricaturas e transforma medo, raiva e ressentimento em ferramentas de convencimento. Enquanto a verdade exige contexto, explicação e responsabilidade, a mentira costuma ser rápida, impactante e viral.
É nesse ponto que o jornalismo assume um papel decisivo. O verdadeiro exercício da informação não pode se limitar a reproduzir declarações ou servir como caixa de ressonância para narrativas fabricadas. Como defendia Alberto Dines, o papel do jornalismo é explicar os fatos, ajudar o cidadão a compreender a realidade, fiscalizar o poder e agir com responsabilidade ética.
Quando a imprensa abandona a verificação rigorosa, relativiza a verdade ou trata fatos e mentiras como versões equivalentes de uma mesma realidade, ela contribui para a erosão da confiança pública. E uma sociedade que perde a referência da verdade torna-se vulnerável à manipulação permanente.
O maior perigo da mentira política não está apenas em enganar momentaneamente. Está em acostumar a sociedade à falsidade, tornando normal aquilo que deveria causar indignação. Quando a mentira vira estratégia legítima de marketing, o debate público deixa de ser disputa de ideias e passa a ser guerra de percepções. Nesse cenário, a verdade já não vence por existir. Precisa ser defendida diariamente.