Que esta é uma campanha estranha, diferente e cheia de combinações improváveis, disso ninguém duvida. Mas chamou atenção a matéria publicada hoje pelo Diário do RN questionando a participação do pré-candidato ao Senado Rafael Motta em agendas políticas ao lado de lideranças identificadas com a oposição, mesmo sendo aliado de Cadu Xavier.
A dúvida é natural. O curioso é que o mesmo questionamento parece não valer para todos.
Vejamos o caso de Parnamirim. A prefeita Nilda, identificada com o campo da direita, apoia – a pedido da governadora Fátima Bezerra – a pré-candidata ao Senado Samanda Alves, nome da esquerda potiguar. Ao mesmo tempo, sua composição política reúne Alysson Bezerra para o Governo, Zenaide Maia para o Senado e Kelps Lima para deputado federal.
Uma combinação que, há alguns anos, pareceria improvável. Hoje, entretanto, é tratada com naturalidade.
Então surge a pergunta: se uma prefeita pode reunir em seu mesmo palanque lideranças de campos ideológicos distintos, por que um pré-candidato ao Senado não poderia dialogar ou receber apoios pontuais de lideranças espalhadas pelo interior, independentemente de suas vinculações locais?
A política sempre foi o território das convergências possíveis. E, em ano eleitoral, os mapas tradicionais costumam ser redesenhados com frequência.
Talvez o fato relevante não seja a fotografia de um encontro ou a presença em uma agenda. Talvez o sinal mais importante esteja justamente naquilo que a campanha vem revelando: os velhos muros ideológicos estão cada vez mais baixos, enquanto as alianças se tornam cada vez mais amplas.
Afinal, se a mistura vale para uns, por que causaria estranheza quando acontece com outros?
Para quem sabe ler os movimentos da política, a questão talvez nem seja a fotografia, a agenda ou os apoios. A questão é entender por que alguém resolveu olhar justamente para eles. Em períodos eleitorais, manchetes também emitem sinais. E, às vezes, os sinais são mais reveladores do que os fatos que lhes deram origem.
Para quem tem o hábito de pôr o ouvido no chão, as manchetes desta semana talvez digam menos sobre os personagens da notícia e mais sobre o ambiente político que começa a se formar.