Quando a política se resume a uma questão doméstica, o maior trunfo da oposição é apenas sentar e assistir à disputa pelo espólio.
No xadrez político, poucas estratégias são tão amadoras quanto lavar a roupa suja sob os holofotes. Quando a crítica demolidora parte de um aliado, ou, pior, de dentro da própria casa, o efeito cascata é imediato: o primeiro beneficiado é sempre o adversário. O outro lado ganha um discurso pronto de bandeja e vê a divisão interna do rival se transformar em seu ativo eleitoral mais valioso.
O recente e explosivo embate público entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e seu enteado, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, é o exemplo pedagógico dessa armadilha. Ao expor de forma direta que foi “humilhada” e tratada como insignificante nas costuras partidárias, Michelle não apenas gerou um ruído forte na pré-campanha de Flávio, mas escancarou o calcanhar de Aquiles do movimento: a simbiose maluca entre interesses públicos e picuinhas privadas.
Na prática, o desgaste paralisa o alvo. Em vez de avançar sobre o eleitorado indeciso com propostas, o pré-candidato é obrigado a gastar capital político, tempo de TV e postagens de desculpas para tentar estancar o sangue no próprio front. Quem ataca, por sua vez, joga um jogo de altíssimo risco. Apenas se houver um clamor popular estrondoso é que o autor da denúncia colhe algum ganho; na maioria das vezes, o saldo final é a erosão da confiança mútua.
O episódio expõe uma verdade incômoda para o campo conservador: o bolsonarismo hoje corre o risco de se comportar menos como um projeto consistente de país e mais como uma rinha familiar disputando uma herança antecipada. Em anos eleitorais de alta polarização, a sobrevivência exige unidade. Disputas de espaço são legítimas, mas só funcionam quando resolvidas nos bastidores.
Quando o grupo escolhe sangrar em praça pública, prova que a vaidade pessoal e o controle do feudo importam mais do que a sociedade e a própria vitória. No fim das contas, nenhuma oposição precisa se esforçar para destruir um grupo que já se destrói por dentro; afinal, o fogo amigo é o único projétil capaz de liquidar um candidato sem que o verdadeiro inimigo precise puxar o gatilho.