SuicÍdio político ou blefe estratégico
A declaração do secretário Cadu Xavier, estampada na capa do Agora RN ontem, caiu como uma bomba no tabuleiro político potiguar. Ao afirmar que “entregar o governo à oposição este ano seria suicídio político”, Cadu não apenas vocalizou um temor interno do grupo governista, como escancarou a fragilidade de um projeto que, até aqui, parecia caminhar com alguma confiança para 2026.
A declaração revela muito mais do que parece. Primeiro, reconhece que a eleição indireta de um governador-tampão, em caso de vacância, não está sob controle do governo. Segundo, admite que a possibilidade da oposição assumir o comando do Estado, ainda que temporariamente, representa um risco concreto à narrativa, às alianças e, principalmente, ao capital político que o grupo da governadora Fátima Bezerra tenta preservar.
Diante disso, surge o segundo ponto, talvez o mais sensível: a hipótese de a governadora desistir da candidatura ao Senado para permanecer no cargo até o fim do mandato, caso não haja segurança sobre quem assumiria o governo. Essa possibilidade, ventilada pelo próprio Cadu, levanta uma pergunta inevitável: trata-se de estratégia ou de receio?
A leitura política é clara. Permanecer no governo garante controle da máquina, preserva influência direta sobre o orçamento, sobre os cargos e sobre o ritmo das entregas. Mas essa decisão teria um custo alto e não apenas eleitoral. A permanência de Fátima até o fim do mandato a coloca diante de um desafio nada trivial: cumprir compromissos fiscais já contratados, em um cenário de forte crescimento das despesas públicas, com projeções que beiram o limite do exequível.
Há previsão de aumento expressivo de gastos, pressões salariais, obrigações com pessoal e compromissos assumidos que exigem rigor fiscal extremo. Permanecer no cargo até dezembro não é apenas “segurar o governo”, é assumir integralmente a conta de um fechamento de mandato pesado, com pouco espaço para manobras e alto risco de mais desgaste administrativo e político. A pergunta que fica é direta: o governo tem condições reais de cumprir tudo o que está previsto sem comprometer ainda mais as finanças do Estado?
Nesse contexto, o discurso do “suicídio político” ganha outra camada. O risco não está apenas em a oposição assumir um governo-tampão. Está também em manter o controle e, ainda assim, sair fragilizado por um fim de mandato marcado por dificuldades fiscais, atrasos, cortes e muitas frustrações.
E há mais uma variável importante nessa equação: o próprio Cadu Xavier. Pré-candidato ao governo do Estado, ele seria candidato em 2026 mesmo com um governador-tampão da oposição ocupando o cargo por alguns meses? Ou viabilidade eleitoral da sua candidatura depende diretamente da permanência do grupo no poder, controlando narrativa, agenda e estrutura?
Se a oposição assumisse o governo-tampão e conseguisse imprimir minimamente sua marca — ainda que por pouco tempo — o jogo mudaria. O discurso de continuidade perderia força, e o eleitor passaria a comparar modelos, ainda que em curtíssimo prazo. Para um pré-candidato governista, isso não é um detalhe: é uma ameaça concreta.
No fim das contas, a fala de Cadu Xavier revela um governo em estado de alerta. Um grupo que, pela primeira vez em muito tempo, admite publicamente que pode não controlar todas as variáveis do jogo. E que sabe que qualquer decisão — entregar, não entregar, ficar ou sair — terá consequências profundas.
Resta saber se a governadora realmente abrirá mão do Senado para ficar até o fim, se o governo conseguirá honrar seus compromissos fiscais sem implodir politicamente, e se Cadu Xavier está disposto a enfrentar uma eleição com o tabuleiro menos favorável do que imaginava.
Na política, como na vida, quando o discurso passa a ser de medo, é porque o risco deixou de ser hipotético.